Pular para o conteúdo principal

Campo Maior, 25 de setembro de 2043

Nos idos de oitenta, fui com as crianças da Ponte até Campo Maior, visitar a fábrica de Cafés Delta. Lá voltei, no setembro de 2023, a convite do Luís Sebastião, do Centro Educativo Alice Nabeiro (da Fundação Coração Delta) e de um grupo de antigos alunos do Professor Manuel Ferreira Patrício.

Como escreveu o Luís:

“Com o propósito de algum modo, usar o seu pensamento e a sua obra como pretexto para repensar a educação numa perspetiva de melhoria e mudança.

Uma das intenções deste grupo é o de realizar, sempre em setembro, mês em que o Professor Patrício nasceu e morreu, e sempre em Campo Maior, uma conferência sobre educação feita por um "autor", no sentido de alguém com pensamento próprio e obra feita.”

No ano anterior, a primeira conferência fora proferida pelo amigo Nóvoa, a propósito da publicação do relatório da UNESCO de que tinha sido redator. 

O Luís escreveu no email-convite que o bom povo de Campo Maior “gostaria muito de que a segunda conferência fosse proferida pelo Sr. Professor”. Mesmo consciente da difícil tarefa de acrescentar algo útil ao discurso de um Mestre da dimensão de António Nóvoa, aceitei o convite. 

Quando, nos idos de vinte e três, se escrevia sobre educação integral, era comum o teórico se “esquecer” de citar a proposta de “Escola Cultural do saudoso Professor Manuel Patrício. Também chamada de “Educação Pluridimensional”, denotava influências da Escola Nova – Claparède, Montessori, Dewey… – mas, as maiores influências teriam sido Comenius, em cuja filosofia o Professor Patrício se revia, e Leonardo Coimbra, filósofo da educação de cariz humanista e personalista, que propõe uma nova Paideia, visando a educação integral do ser humano.

A escola era considerada numa perspectiva multidimensional. O programa educativo escolar possuia três dimensões, aproximando-se da conceção de currículo tridimensional, que ensaiamos na terceira década deste século. Cada uma das dimensões tinha um papel a desempenhar na transmissão do legado cultural e na criação cultural.

Isso intuíra nas intervenções do Professor Patrício, aquando dos trabalhos da Comissão da Reforma do Sistema Educativo (em 1984 e 1985), bem como nos encontros promovidos pelo Instituto de Inovação Educacional dos idos de noventa. 

Havia lido no site do Centro Educativo Alice Nabeiro, um lema: “Todos somos líderes das nossas ideias”. E no site da empresa, a Missão: “O nosso contínuo compromisso com a sustentabilidade é uma manifestação viva dos valores do nosso fundador. Continuar a assegurar a nossa rentabilidade económica, reduzindo o impacto ambiental e maximizando o impacto social positivo, é a nossa maior determinação. Será este o nosso futuro, materializado pela nossa estratégia de sustentabilidade global, desenhada em torno da nossa contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. 

A intenção era a de tornar as conferências Manuel Ferreira Patrício um local e um tempo de encontro da comunidade educativa. “Que as conferências sejam presenciais e que seja possível conviver-se, debater-se e sonhar-se o futuro da educação em comunidade. Desejamos, naturalmente que se venham a tornar uma referência nacional”, acrescentava o amigo Luís.

À distância de vinte anos, poderei dizer que o sonho do Luís, da Dionísia, dos empresários e do Centro Educativo foi bem mais longe do que poderíamos imaginar. E o que vivi e senti em Campo Maior me devolveu a esperança de Portugal entrar no século XXI da Educação. Ainda hoje, nutro por aquela boa gente um profundo sentimento de gratidão.


Postagens mais visitadas deste blog

Ipê, 23 de outubro de 2043

Pela grande amizade que nutria por um bom amigo, eu hesitava entre agir como “Advogado do Diabo” (a Vovó Ludi não permitia que o fosse), ou ser o Grilinho do Pinóquio. Fosse como fosse, não me omitia, não me quedava neutral face ao teor daquilo que suscitou um “Uau!” desse amigo: “A professora de Chase está à procura de crianças solitárias. Ela está à procura de crianças que têm dificuldades para se conectar com outras crianças. Ela está a identificar os pequenos que estão a cair nas fendas da vida social da turma. Ela está descobrindo que dons estão passando despercebidos pelos seus pares. E ela está a identificar quem está a sofrer bullying e quem está a fazer o bullying.” Cadê a novidade? Porquê um “Uau!”, se todas as escolas deveriam ser espaços produtores de culturas singulares, mas também espaços de múltiplas interações, cooperação, partilha, comunicação, algo impossível em sala de aula.  Nos idos de vinte as escolas eram, quase sempre, espaços de solidão. E a solidão dos pro...