Um episódio trágico deu que pensar... Um aluno de escola próxima cometera suicídio – eu sei que custa aceitar a ideia do suicídio na infância, mas a criança em causa, ao que pude apurar, há muito evidenciava comportamentos que poderiam ter sido sinais de alarme – ficamos atentos a pormenores. A Inês ficava fixando os olhos num ponto qualquer e se ausentava. O Júlio infligia a si próprio um contínuo sofrimento, com qualquer objeto cortante que estivesse à mão, se automutilava. O Vasco alternava súbitos gritos com longos períodos de prostração. Falou-se de desencontros, de falta de comunicação, de sofrimentos. O que, até então, poderia ser considerado tabu, passou a ser encarado como déficit de atenção. Não que aqueles professores andassem distraídos, mas que não se perderia nada em atentar em insignificantes significâncias. A caixinha dos segredos (assim foi batizada pelos alunos) passou a encher-se de mensagens de seres sedentos de diálogo. Havia os que colocavam na caixinha papé...
Daniel Pennac viveu uma escolaridade desastrosa. Dizia ser um péssimo aluno, vítima de uma “ disortografia infantil”… e acabou professor de literatura. Referência em pedagogia, é autor do "Diário de Escola", no qual nos fala sobre os principais valores a serem resgatados pela educação contemporânea. Em 1979, realizou uma estadia de dois anos no Brasil e escreveu o romance “O ditador e a cama de rede”. Regressado à França, começou a escrever para as crianças e publicou “Como um Romance”, um ensaio de pedagogia ativa, lúcida e entusiasta, no qual apresenta o que chama de “Direitos imprescritíveis do leitor”: “Não se pode forçar uma curiosidade, temos que despertá-la”. “Que pedagogos éramos quando não tínhamos a preocupação da pedagogia!” – exclama Daniel na sua obra “Como um Romance” - aparte os formalismos, as preocupações excessivas com métodos, resultados e acertos, existem valores que crianças, pais e professores compartilham. Estes valores são os pilares ...