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Belo Horizonte, 26 de janeiro de 2044

Há vinte anos, por esta altura, estava indo para mais um lugar onde havia morado e trabalhado, gratuitamente. Um homem rico, dono de uma escola, me havia pedido para dela “fazer uma Escola da Ponte”.

Naquele tempo, eram muitas as escolas que, para atrair matrículas, propagandeavam terem adotado “o Método da Ponte”, como se a Ponte fosse “um método”. Outras tentavam usar o vosso avô como aquilo que os brasileiros designavam de “garoto propaganda”. Certo é que, enquanto o vosso avô, gratuitamente, ajudava a melhorar a vida de professores e crianças, muita gente fazia fortuna palestrando sobre a Escola da Ponte. 

A imoralidade grassava num sistema de ensinagem obsoleto. Para aqueles que se aproveitavam de trabalho alheio, a ética era coisa de papalvo. Frequentes eram as pequenas traições e abusos de confiança. Não foi o caso da Lilian.

Conheci a Lilian na escola do homem rico. Fora contratada pelo dono da escola, para com ele colaborar na destruição de um projeto que, com a Claudia, eu havia desenvolvido naquela escola. O projeto se dissolveu entre os caprichos do dono dessa escola e a conivência de dadores de aula, que, para não perderem o emprego, perderam a dignidade. A sua desonestidade intelectual foi recompensada com tablets oferecidos pelo dono da escola, que acreditava que o dinheiro poderia comprar consciências. 

Queridos netos, vos pouparei à descrição de fatos pouco edificantes, aos efeitos da negação de valores consagrados no projeto dessa instituição, do autoritarismo de uma coordenadora, do conservadorismo de famílias-clientes de uma escola-fraude. 

O trabalho sério de reflexão sobre as práticas, um acervo de rica documentação arquivada num computador, desapareceu “misteriosamente”, provavelmente, pelas mãos de uma coordenadora. Conceitos como “democraticidade, diálogo e responsabilidade ética” continuaram a enfeitar o projeto (escrito), enquanto os padrões de comportamento cotidiano refletiam uma herança civilizatória contraditória com a matriz axiológica. 

Atenta às intenções do contratante, a contratada Lilian reagiu com lealdade, mas em relação ao projeto. Isso mesmo, queridos netos, aprendi com a Lilian o valor da lealdade. Com essa amiga, aprendi que, no seio de uma crise moral, ainda valia a pena acreditar nos professores.

Naquela tarde, coube à Lilian fazer-me perguntas, num encontro promovido pelo amigo Paulo (eu chamava amigo a todos os amigos das crianças). Foram perguntas certeiras, que despertaram tristes memórias e me fizeram reagir emocionalmente, lançando no auditório outras certeiras perguntas. 

Concluí, pedindo aos educadores presentes que assumissem um compromisso ético com a Educação. Convidei-os a tomar a decisão ética de reelaborar a sua cultura profissional, para que a todos os seus alunos fosse garantido o direito à Educação:

“Sede leais às crianças.”

Diz-nos o dicionário que lealdade é qualidade, ação ou procedimento de quem é leal, honesto, fiel a compromissos. A lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade se aprende, no seio familiar, no cotidiano das escolas ela se cultiva. 

Não nascemos reflexivos; aprendemos a refletir. Não nascemos com virtudes; aprendemos virtudes. Em extraordinárias escolas aprendei a lealdade a ideários. Com outros educadores, busco assumir o princípio básico de Santo Agostinho: quando não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se fazer tudo o que se pode, sendo leal a si. 

No Brasil, reaprendi a lealdade a novos companheiros de projeto. E o que aconteceu?


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