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Aveiro, 23 de fevereiro de 2044

Não sei, netos queridos, se já estais saturados destas divagações, mais ou menos, teóricas. Mas, podereis crer que, nos idos de vinte, houve educadores que por elas se interessaram e sobre elas refletiram. Talvez, também, em 2044, haja quem esteja interessado naquilo que rascunhei numa velha máquina de escrever, em velhos papéis, que retiro do baú das velharias. Salvo do esquecimento algumas reflexões, no pressuposto de que ainda tenham alguma serventia.  Se vos desagradam, mudarei de assunto. 

Como devereis ter reparado, tento fugir ao uso indiscriminado do jargão “científico”, embora não consiga… Naquele tempo – anos oitenta – o discurso da autonomia poderia desempenhar uma poderosa função ideológica, promovendo a subordinação do indivíduo a um sutil controlo organizacional. 

Foi vergonhosa a ação dos teoricistas (uma das sete pragas da educação), que, dominando o jargão “científico”, encontrando-se em posições de poder, anularam a parca autonomia conseguida pela à Escola da Ponte, em 2004. Abusando de efeito retroativo (ilegal!) de uma lei do final da primeira década deste século, o ministério da educação, unilateralmente e à margem da lei, retirou competências básica de um contrato de autonomia.

O vosso avô abominava má-fé, desonestidade, mesmo que ornamentada com citações, com frases de belo efeito, ou com um “jargão” dito científico que, não raramente, ocultava… ignorância. 

O humanismo renascentista já havia celebrado o carácter efémero da realidade, já havia reconhecido que a realidade é desprovida de qualquer finalidade. O carácter informal do “círculo de estudos” (a modalidade de formação por nós mais utilizada) servia um propósito de apoio do professor na resolução de conflitos, no “confronto de autonomias”. 

Tudo é transitório e inconsequente, mas também provisoriamente durável e significativamente produtivo. Em círculo, o professor permanecia firme numa tradição de formação, sabendo que outras tradições existiam e mereciam escuta.

Essa autonomia de novo tipo realçava a inutilidade de controlo externo. No círculo, os professores detinham um efetivo controlo sobre o seu próprio trabalho, e o entendimento de que a inteligibilidade do real sofria uma erosão constante. 

À desatualização dos saberes, o círculo contrapunha uma autonomia sempre provisória e questionável – para a provisoriedade dos conhecimentos uma autonomia de recorte não definitivo e continuamente amadurecida.

No seio do círculo não se alienavam as estruturas profundas de desenvolvimento individual no quadro do coletivo, antes se agudizavam os conflitos para, através deles, se testar meras aparências de autonomia.

O círculo possibilitava a afirmação de autonomias individuais, no aprofundamento das relações entre o indivíduo e as estruturas sociais de subordinação, pois a gestão das dependências admitidas como inevitáveis não se referia a uma liberdade abstrata, a uma noção especulativa de mudança social.

Concebida desse modo, a autonomia do círculo relativizava a originalidade da autonomia de cada destino particular, sem que privasse cada um dos seus elementos de uma autonomia-com-os-outros. De uma autonomia que poderia ser conceptualizada enquanto ação de um sujeito envolvido num projeto humano coletivo, numa “autonomia relacional”.

Vai para uns vinte anos, eu tentava assegurar a autonomia (financeira) de um projeto. A experiência colhida levou-me a escrever um livrinho sobre autonomia. Se ainda houver algum exemplar por aí, vo-lo darei a conhecer.


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