“Ó professor, escusa de vir com esses argumentos, que eu andei no ““ensino tradicional” e saí de lá muito bem preparado!
Ainda bem.” – respondi, atenuando a irritação do jovem.
Ele insistiu, realçando as qualidades do dito “ensino tradicional”, nomeadamente, “a preparação que dava na Matemática e na Língua Portuguesa”.
Eu contrapus:
“Permitis que vos coloque algumas perguntas?
Faça o favor!” – disseram, em tom desafiador.
Aproveitei a deixa e coloquei-lhes duas questões muito simples, uma relacionada com matemática, outra com língua portuguesa. Alguns ainda balbuciaram algo ininteligível, depois fez-se um silêncio de embaraço.
Rematei a discussão com crueldade. Recorri a perguntas às quais nunca ninguém soube responder.
Se nas áreas nobres já estávamos conversados, a incursão na História de Portugal acabou com a resistência daqueles combativos jovens. Todos se gabavam de saber na ponta da língua as datas das descobertas marítimas portuguesas e os nomes dos audazes achadores. Tudo se lhes tinha varrido, à semelhança do que decoravam para os exames que preencheram o seu “avaliado” itinerário escolar feito de inúteis provas, e até obter um diploma universitário. Tudo tinham “vomitado” nos testes e nas “frequências” da saga universitária e, depois, esquecido, para “arranjar espaço para o que não cabia nos copianços”.
Magnânimo (como convinha à circunstância…), eu lá fui dizendo que nem tudo se deve rejeitar no “ensino tradicional”, que é falsa a dicotomia entre moderno e antigo, inovação e tradição. Afirmei-lhes ter testemunhado inovações no “antigamente”, ilustrando a afirmação.
Aqueles “velhos” jovens rejuvenesceram e reconheceram:
“Estudamos a História de ponta a ponta, mas ficou pouca coisa. A gente tem de ser humilde e aceitar que as coisas eram mesmo assim.”
Se, no domínio da acumulação de conhecimentos, o “ensino tradicional” falhava rotundamente, o que dizer da aprendizagem de outros saberes? O “tradicional” alheamento da escola relativamente à educação dos afetos e o “tradicional” ostracismo a que era votado o desenvolvimento sócio emocional contribuíam para reforçar a ideia de que teríamos de aceitar como fatalidade uma sociedade de vícios privados e públicas virtudes.
Felizmente, aquela educação, que recebestes em família, vos protegeu dos malefícios de uma tradição apodrecida.
Nos primórdios da década de setenta e nos vigiados e estreitos corredores de liberdade de uma escola sujeita aos ditames do Estado Novo, um professor desafiou-me para a aventura de um conhecimento que nos era sistematicamente ocultado. Incitou-nos a conduzir os nossos destinos:
“O que quereis fazer? O que quereis aprender?” – perguntou logo no primeiro dia de aulas. E nós ficámos perplexos, receosos de uma eventual armadilha contida na pergunta. Rapidamente, se desvaneceu a desconfiança. Partimos na aventura de descobrir.
No meu percurso de estudante, nunca mais ouviria da boca de um professor esses estimulantes desafios. Mas as palavras e os gestos desse professor ficaram a levedar no mais profundo do subconsciente, à espera do momento propício para se transmudarem em atos.
