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Calendário, 28 de março de 2044

Enquanto ligava o computador, recordava um episódio recente. Tinha à minha frente cerca de uma centena de jovens. Discutíamos as virtudes e os defeitos da escola de antigamente, num ambiente de incómoda letargia. Para os espicaçar, exagerei algumas posições críticas. E, talvez por ser apanágio da juventude contrariar os adultos, um dos jovens assumiu a defesa do chamado “ensino tradicional”: 

“Ó professor, escusa de vir com esses argumentos, que eu andei no ““ensino tradicional” e saí de lá muito bem preparado!

Ainda bem.” – respondi, atenuando a irritação do jovem.

Ele insistiu, realçando as qualidades do dito “ensino tradicional”, nomeadamente, “a preparação que dava na Matemática e na Língua Portuguesa”.

Eu contrapus:

“Permitis que vos coloque algumas perguntas?

Faça o favor!” – disseram, em tom desafiador.

Aproveitei a deixa e coloquei-lhes duas questões muito simples, uma relacionada com matemática, outra com língua portuguesa. Alguns ainda balbuciaram algo ininteligível, depois fez-se um silêncio de embaraço. 

Rematei a discussão com crueldade. Recorri a perguntas às quais nunca ninguém soube responder.

Se nas áreas nobres já estávamos conversados, a incursão na História de Portugal acabou com a resistência daqueles combativos jovens. Todos se gabavam de saber na ponta da língua as datas das descobertas marítimas portuguesas e os nomes dos audazes achadores. Tudo se lhes tinha varrido, à semelhança do que decoravam para os exames que preencheram o seu “avaliado” itinerário escolar feito de inúteis provas, e até obter um diploma universitário. Tudo tinham “vomitado” nos testes e nas “frequências” da saga universitária e, depois, esquecido, para “arranjar espaço para o que não cabia nos copianços”.

Magnânimo (como convinha à circunstância…), eu lá fui dizendo que nem tudo se deve rejeitar no “ensino tradicional”, que é falsa a dicotomia entre moderno e antigo, inovação e tradição. Afirmei-lhes ter testemunhado inovações no “antigamente”, ilustrando a afirmação. 


Aqueles “velhos” jovens rejuvenesceram e reconheceram:

“Estudamos a História de ponta a ponta, mas ficou pouca coisa. A gente tem de ser humilde e aceitar que as coisas eram mesmo assim.”

Se, no domínio da acumulação de conhecimentos, o “ensino tradicional” falhava rotundamente, o que dizer da aprendizagem de outros saberes? O “tradicional” alheamento da escola relativamente à educação dos afetos e o “tradicional” ostracismo a que era votado o desenvolvimento sócio emocional contribuíam para reforçar a ideia de que teríamos de aceitar como fatalidade uma sociedade de vícios privados e públicas virtudes. 

Felizmente, aquela educação, que recebestes em família, vos protegeu dos malefícios de uma tradição apodrecida.

Nos primórdios da década de setenta e nos vigiados e estreitos corredores de liberdade de uma escola sujeita aos ditames do Estado Novo, um professor desafiou-me para a aventura de um conhecimento que nos era sistematicamente ocultado. Incitou-nos a conduzir os nossos destinos:

“O que quereis fazer? O que quereis aprender?” – perguntou logo no primeiro dia de aulas. E nós ficámos perplexos, receosos de uma eventual armadilha contida na pergunta. Rapidamente, se desvaneceu a desconfiança. Partimos na aventura de descobrir. 

No meu percurso de estudante, nunca mais ouviria da boca de um professor esses estimulantes desafios. Mas as palavras e os gestos desse professor ficaram a levedar no mais profundo do subconsciente, à espera do momento propício para se transmudarem em atos.


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