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Eiriz, 26 de março de 2044

O episódio aqui inscrito ocorreu no tempo do WhatsApp e do Facebook, que, há uns vinte anos, eram modos de as pessoas conversarem sobre insignificâncias. Talvez já não vos recordeis desses apetrechos da era em que imperavam as tecnologias digitais de informação e comunicação. Estávamos no tempo das ditas “novas tecnologias”. Na verdade, eram tecnologias digitais rudimentares. Não raras vezes, utilizadas para manipular, ou criar dependentes de ágeis polegares.

Recordo-me de ver o Marcos às voltas com sites de design, na Internet. E da Alice pesquisando numa plataforma digital disponibilizada pela faculdade de psicologia. Foi numa empresa de produção dessas plataformas digitais que o episódio incluso nesta carta se desenrolou. 

O dono da empresa quis conversar comigo. E foi até Cotia, à Escola do Projeto Âncora. Conversamos:

“Professor, você tem aqui um belo projeto. Trabalham com plataforma de ensino?

Não. Nós criamos uma plataforma, mas de aprendizagem. 

De aprendizagem? E essa plataforma tem o currículo todo, tem os conteúdos?

Não. Aqui, os jovens não consomem currículo. Eles constroem currículo, conhecimento, a partir de projetos.

Que tipo de projetos os professores preparam para os alunos?

Os tutores não preparam projetos. Constroem projetos com os seus educandos.

E têm lousa digital nas salas de aula?

Não há salas de aula. Nem lousas digitais.

Como? Então…” 

A conversa ficou densa, carente de explicitação. Para a suavizar, perguntei:

“Quais são as vantagens de uma plataforma de ensino?

A vantagem é que, através dela, os alunos podem escolher o que querem estudar.

Dá-me um exemplo, por favor.

Por exemplo, em determinado dia, um aluno escolhe estudar… raiz quadrada.

E por que razão ele escolhe estudar raiz quadrada nesse dia?” – perguntei.

Após alguns segundos, com ar de quem reflete, respondeu:

“Nunca tinha pensado nisso.”

Pois não… Naquele tempo, os alunos consumiam um currículo “pronto-a-vestir”, servido por uma “base curricular”, em plataformas digitais. “Ensinos híbridos” e planejamentos de aula à venda no mercado da Internet quase dispensavam  o professor. Tarde demais, compreenderam que tinham feito um grande disparate.

Os pais queixavam-se de ver os filhos amarrados a computadores, a videojogos, esquecendo que, quando bebés, ao invés de chupeta, lhes tinham posto nas mãos um computador, para que não gritassem, para que se calassem. As “novas tecnologias” transformaram-se em panaceias do modelo escolar. Apenas serviam para o consumo acéfalo de conteúdo, sem resquícios de cooperação, na dependência de vínculos afetivos precários estabelecidos com identidades virtuais.

A Internet era generosa na oferta de informação. Tudo o que um professor pudesse "ensinar" estava disponível, de modo mais atraente, num computador. Os professores mantinham-se ancorados em práticas obsoletas, servidas em lousas digitais, ou replicando aulas congeladas no YouTube. O modo como utilizavam a Internet fomentava imbecilidade e solidão. As escolas tinham-se enfeitado de informação sem cuidar da comunicação, sem lograr desenvolver democraticidade, cidadania. 

Nesses recuados tempos, a democracia viveu tempo sombrios. A sociedade padecia de medo, egoísmo e de fundamentalismos. Foi, então, que educadores atentos se aperceberam da sua quota parte de responsabilidade. E, no início dos anos vinte, a crise cedeu lugar a novas práticas e construções sociais.

O espectro de novas inquisições se desvaneceu. Chegara o tempo de usar o digital ao serviço da humanização da escola.


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