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Porto, 24 de março de 2044

Faltava pouco mais de um mês para a celebração dos 50 anos da “Revolução dos Cravos”, quando, não por acaso, regressei à leitura do livro “Desta Terra Nada Vai Sobrar a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela”

O título fora extraído de um poema de Brecht sobre a Alemanha nazi. O livro começara a tomar forma, quando Loyola Brandão leu num jornal que, no futuro, a ciência poderia produzir um homem sem emoção. Felizmente – pelo menos até agora, na década de quarenta – o ser humano ainda manifesta sentimentos. 

Mas, sabemos que, há não mais do que vinte anos, o sistema de ensinagem produzia bonsais humanos, protótipos desse imaginado “homem do futuro”. Em 2024, era perceptível a normose instrucionista – a vida se normalizara numa anormalidade.  

Na abertura do livro, Loyola isto escreveu:

“No momento em que a normalidade é o normal, com os índices de feminicídios, as milícias que comandam o Rio de Janeiro e as facções, isso não é o normal. Isso é uma anormalidade dentro do cotidiano. Vivemos numa situação de sobressalto. Nós estamos sendo conduzidos como na fábula do flautista que toca e conduz os ratos, que vêm atrás para o precipício. A normalidade seria o respeito à lei.” 

A normalidade seria respeitar a lei, dizia-nos o escritor. Mas, os ministérios da educação obrigavam as escolas a desrespeitar a lei, ao impor às escolas a prática de um modelo educacional obsoleto, abjeto, que negava o (constitucional) direito à Educação a milhões de jovens. 

O sistema de ensinagem havia sido interpelado por professores conscientes do genocídio educacional que o instrucionismo causava. Mas, nesse diálogo de surdos, ministérios e burocráticas excrecências perseguiam quem ousava questionar. 

Impunemente, a administração do sistema infringia preceitos da Constituição e da Lei de Bases. Não restava alternativa. Se a administração educacional ostracizava propostas fundamentadas na lei, os professores passaram a ostracizar as propostas emanadas da administração, por estarem fora-da-lei. 

Na Páscoa de 2024, Loyola vinha confirmar a justeza da decisão tomada por professores éticos. “Parece que a reação já começou com a desobediência civil, dizia. E lembrava aos professores, em particular, o exemplo de mestres como Gandhy. 

Na Índia da primeira metade do século XX, Gandhi reagiu às injustiças perpetradas pelo Império Britânico. monopólio britânico proibia os hindus de produzir o seu próprio sal e Gandhy decidiu desobedecer às "Leis do Sal".

Quando o colonizador ameaçou com represálias, Gandhy informou o vice-rei de que iniciaria uma desobediência civil em massa. E levou os indianos a desafiar o imposto salino cobrado pelos ingleses. 

A “Marcha do Sal” foi uma das iniciativas não-violentas, que contribuíram para libertar a Índia do colonialismo britânico. Gandhy era advogado especialista em ética política. Se vivesse nos idos de 2024, certamente estaria irmanado com os professores que desobedeceram a imposições e resistiram a ameaças, para que a lei fosse cumprida.

O termo hebraico Pesach está na origem da palavra Páscoa e significa “passagem”. Simbolicamente, Páscoa é oportunidade para refletir sobre vida ressignificada. No Dia de Ramos de há vinte anos, decidi ir além da reflexão. 

A Páscoa da Aprendizagem começara, há quase setenta anos, numa escolinha do norte de Portugal,. A Páscoa da Educação de Portugal e do Brasil começou a ser celebrada há vinte anos. 

No exercício de uma fraterna desobediência, a Páscoa de 2024 foi o anúncio da libertação do autoritarismo, para que pudessem ser celebrados o Amor e a Vida.


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