A tarde do dia 29 de abril de há vinte anos mostrava-se auspiciosa. Eu regressava ao Porto e à escola onde, entre oficinas de serralharia e laboratórios de eletricidade, me fizeram eletricista.
Naquele dia de abril, cerca de uma centena de extraordinários seres humanos se reuniram para fazer o que (há mais de cem anos!), precisaria ser feito. Sessenta anos eram passados. Apesar de dispor de excelentes professores, o velho e obsoleto sistema deseducativo usava artifícios para prolongar a sua agonia.
Eram educadores, que carregavam um insustentável peso de conscientização – eram freirianos – graças a Deus! – armados de Amor e de Coragem, que assumiam um compromisso ético com a Educação.
Naquele dia de abril, eu perguntava:
“O que vos move?”
“O que vos impede de agir?”
E depositava nas mãos de uma nova geração de educadores o insustentável peso de responsabilidade com que havia atravessado mais de meio século.
Fora penosa a jornada. Para afastar tristes recordações recorri a um dos meus habituais lenitivos. Ignoro se ainda está disponível, numa das antigas empresas de serviços online e software, um vídeo, que reproduz o final de um filme sobre a vida de Beethoven. No velho Google, estava disponível neste endereço: https://youtu.be/qXDSW83Sc2I. Era uma versão romanceada da primeira audição da Nona Sinfonia.
No filme, o maestro Beethoven entrava em palco no início do quarto e último andamento, levando consigo uma jovem, que, discretamente, lia a pauta e lhe dava indicações de regência, o que, na realidade, não aconteceu. E o quarto andamento estava encurtado. O realizador e a produção tinham suprimido muitos compassos… mas vamos ao essencial.
No “hino da alegria” – a Ode An Die Freude de Schiller, magistralmente musicada por um surdo – o coro canta: “Alegria, formosa centelha divina! Tua magia volta a unir o que o costume rigorosamente dividiu. Todos os homens se irmanam onde teu doce voo se detém.”
O filme mostra que, no final da sinfonia, o público se levantou, num longo e caloroso aplauso. Na verdade, não houve salva de palmas, mas apupos, ainda que com algumas palmas à mistura.
O poema “An die Freude” foi escrito por Schiller, em 1785. O poeta apelava à prática de ideais como a liberdade, a paz e a solidariedade, ideais partilhados com um Beethoven que viu censurada a sua obra.
Na primeira apresentação da Nona Sinfonia, os “tradicionalistas” chamaram “aberração” ao último dos seus andamentos. Nesses tempos sombrios, os detratores do génio opunham-se a que se cantasse que “o Homem é para todo o Homem um irmão” e que “a alegria é a filha querida dos deuses”.
Quando era criança, enquanto me batia, o meu pobre pai gritava:
“Não chora!”
Eu engolia o choro. Mas, os homens também choram. Nos derradeiros compassos dessa sinfonia, suave, serena, alegremente, as lágrimas rolavam pelo meu rosto. Nos dias em que a indignação se soerguia e se tornava mais difícil suportar os ecos da barbárie, a audição da “Nona de Beethoven” era um bálsamo retemperador.
A surdez de Beethoven era uma surdez natural. E ele conseguia escutar a sua música interior. A surdez da administração educacional era obscena, insensível à “alegria, formosa centelha divina, que unia aquilo que o costume rigorosamente dividira.”
Eram raríssimos aqueles que ousavam operar mudança no chão de escola de sala de aula. A mediocridade e a maledicência espreitavam em cada recanto. Os obreiros da mudança davam-se conta de que, se o maior aliado de um professor era o outro professor, o maior inimigo do professor “beethoveniano” era um outro professor.
Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou. Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...
