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Caparica, 23 de maio de 2044

Nos idos de vinte, vivíamos sob a ameaça da praga dos “especialistas” autores de “cartas educativas”. 

Quem lesse uma dessas cartas, teria lido todas. Eram repositórios de lugares-comuns, de citações copiadas de um qualquer compêndio de pedagogia. E de “educativas” nada tinham. 

Os “especialistas” eram contratados por autarquias, a troco de pagamento de inúteis “relatórios”, “projetos”, “cartas”. Havia “especialistas formados em marketing, geografia, turismo e em outras áreas. Os “especialistas” de que as autarquias falavam poderiam até ser diplomados em educação, mas o paradigma que as cartas refletiam era o de uma escola do século XIX. As cartas educativas seriam, talvez, produtos de especialistas em engenharia e construção civil, que pouco ou mesmo nada sabiam da Educação necessária. 

Quando conceberam os chamados “centros educativos” e contribuíram para “fechar escolas”, os “especialistas” foram corresponsáveis pela destruição de comunidades e progressiva desertificação do interior português.

Andou o vosso avô visitando escolas, estabelecendo pontes de entendimento com educadores esperançosos, procurando encontrar modos de inverter um discriminatório processo de desertificação. Mas, critérios de natureza economicista originaram o despovoamento do interior de Portugal. 

Nas aldeias do interior dos idos de vinte, os prédios escolares abandonados eram ruínas, ou eram alindados, para alojar velhos. Onde se escutara o riso das crianças, nos idos de vinte, se escutava lamentos de velhos – nessas aldeias já não havia crianças.

As “cartas educativas” muitos prejuízos causaram. Os “centros educativos” e outras megalómanas construções escolares custaram fortunas ao erário público, enriqueceram os autores das “cartas” e os donos de empresas de construção civil e de transporte escolar. 

Fechados os prédios escolares próximos das suas residências, as crianças passaram a ser acordadas de madrugada e transportadas para grandes “armazéns de docentes e discentes”, situados nas localidades-sedes dos municípios. 

Nos anos noventa, o ministério mandou “fechar escolas” com menos de dez alunos. Pois, num “centro educativo”, que visitei, nos idos de vinte, havia dois ou três alunos para cada professor. Por que não os mandavam “fechar”?

Fui presidente de uma autarquia. Tive que decidir em questões educacionais. Fi-lo na qualidade de autarca, mas, sobretudo, enquanto mestre em educação. Escutado o parecer de engenheiros, em conformidade com a Lei de Bases, as decisões tomadas tinham fundamento científico. 

Seria necessário, pois, que os autarcas entendessem que não iriam “fechar uma escola” – escolas eram (e são) pessoas e não prédios. Em meados da década de setenta, o prédio em que funcionava a Escola da Ponte estava em ruínas. E burocráticos rumores circulavam: 

“Professor Zé, dizem que vão fechar a nossa escola.”

Na década de oitenta, a Escola da Ponte foi contemplada com um prédio do projeto de “área-aberta”. O edifício anteriormente utilizado (que datava do século XIX!) foi demolido. 

Enquanto duraram as obras, a escola (as pessoas, a comunidade da Ponte) ocupou outros espaços de aprender, que havia em Vila das Aves. As pessoas dos professores e dos alunos continuaram a ensinar e a aprender, sem necessidade de migrar para outras paragens.

A Escola da Ponte era (e ainda é) portuguesa, e não “fechou”. Se a escola da Cátia, também, era portuguesa, que razões assistiam aos autarcas e “especialistas”, para decidir “fechar a escola” da Professora Cátia? 

Nenhuma!


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