“Olá, professor Zé!
Em 2006, efetivei neste Agrupamento de Escolas, fiquei colocada numa Escola Básica. Eu já conhecia o espaço, mas agora eu ia para lá. Era diferente!
Iniciei o ano com três diferentes anos de escolaridade. No princípio, e seria muito mentirosa se não o dissesse, fiquei um bocadinho perdida. Até então tinha tido apenas turmas de quarto ano.
Tanto manual e livros de fichas, tanto programa a cumprir ao mesmo tempo, e tantos alunos com saberes diferentes! Seria complicado. Ia para a escola angustiada, pois não sabia se seria capaz, não sabia se não ia falhar muitas vezes.”
Este excerto da mensagem da Cátia é reveladora de uma séria tomada de consciência e de decisão ética, a que se seguiu um processo de mudança. Mas…
“Professor Zé, não sei se já teve oportunidade de ler o e-mail que lhe enviei. O processo de encerramento continua e, com muita pena minha, acho que, daquilo que tenho ouvido como justificação é que os edifícios contam.
Dizem da parte da câmara que “aquilo não é uma escola, não tem ginásio, não tem biblioteca, não tem isto ou aquilo (tudo físico), se forem para outra escola têm ginásio” – como se uma coisa substituísse a outra, brincar na terra, fazer bolinhos – “há materiais que fazem isso tudo e para além disso é o mais grave: são 4 anos numa sala”.
Chego à conclusão que os alunos e o ensino têm que estar enterrados em placas de cimento, enclausurados em edifícios bonitos, porque isto é que fica bem ao poder. Escolas novas e coloridas com a morte lá dentro.”
Era bem verdade, Cátia! Mesmo “colorido”, o modelo educacional imposto pela administração educacional às escolas, para além de obsoleto e sem fundamentação científica, era obstáculo ao cumprimento da lei.
A Constituição e a Lei de Bases nos diziam que a Educação era um direito subjetivo, inalienável, era um direito de todos. Mas, ano após ano, o Sistema condenava milhares de alunos à ignorância, ao insucesso pessoal e social. O modelo educacional imposto era causa de “abandono intelectual”.
Foram décadas de acúmulo de “casos”, muito tempo, demasiado tempo desperdiçado a conceber projetos, que acabavam “mortos” às mãos de burocratas. Foram décadas assistindo impotente ao sucateamento da Escola Pública.
Chegamos à mesma conclusão do Mestre Darcy. Não se tratava de uma crise com fim à vista. Era um projeto sem fim, que urgia suster.
No fundo do baú das velharias, colados à mensagem da Cátia, notícias de jornais de há vinte anos davam conta da instalação do caos:
“O Brasil ainda tem 11,4 milhões que não sabem ler e escrever”
“Adolescente mata os pais e a irmã em SP por ficar sem computador e celular. Segundo a polícia, ele usou a arma do pai, que era guarda municipal, e foi para a academia após o crime.”
“Submersa há 15 dias, cidade mais afetada do RS reabre casas pouco a pouco. Quase 80% da população de Eldorado do Sul foi atingida pelas enchentes”
Talvez não por acaso, no início deste século, o vosso avô havia participado (gratuitamente) na elaboração de um projeto em Eldorado do Sul. Se políticos manhosos não tivessem destruído o “Projeto Sepé Tiaraju”, talvez a tragédia não atingisse tamanha proporção.
Era por demais evidente que três subsistemas sociais deveriam ser alterados: o subsistema político, que demonstrava total inépcia na gestão de crises humanitárias; o econômico, que não mais poderia manter-se predatório; e o educacional, que estava na base de ambos.
“Dizem da parte da câmara que “aquilo” não é uma escola” – escreveu a Cátia.
Afinal, o que seria uma escola?
