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Morada da Águias, 27 de maio de 2044

Por volta do ano dois mil, o Ademar compôs um texto, que retratava na perfeição um “sistema educativo” que não educava. O texto tinha por título “As lições de uma Escola ou uma Ponte para muito longe”. E o Ademar o dedicava:

A todos aqueles que, num quarto de século, fizeram da Escola da Ponte aquilo que ela é. 

Nunca, por mais anos que viva, conseguirei dizer e significar o quanto vos devo, como cidadão, como pai e como professor.”

Dar-vos-ei a conhecer esse belo naco de prosa. E nesta cartinha fica o início:

“Vemos para fora e vemos para dentro. Fora, vemos apenas o que de efémero se vai oferecendo ao horizonte dos nossos olhos. Dentro, tendemos a ver o que não existe, frequentemente, o que desejaríamos que existisse…

Mas, sendo embora aquele que, por inventar o que não existe, antecipa e germina o futuro, o olhar para dentro seria um olhar completamente vazio de sentido se não dialogasse permanentemente com tudo o que existe, fora dele. 

Nenhuma mudança se funda no nada, na negação da história ou da realidade ou das suas aparências, por mais efémeras que se apresentem aos nossos olhos, quando eles vêem para fora. Todas as utopias se reportam ao que existe e tudo o que existe aspira ao que não existe. O que não existe precisa do que existe – como se fosse a sua face mais oculta. 

Daí que o olhar para dentro e o olhar para fora não sejam olhares inimigos ou disjuntivos. São olhares que se vêem também um ao outro e que eroticamente se desejam, aspirando à comunhão. 

Olhar apenas para fora ou para dentro seria dolorosamente insuportável. Se tivéssemos apenas olhos para o que existe – não veríamos o que falta e cegaríamos para as utopias. Se víssemos apenas o que não existe, regressaríamos rapidamente a uma imensa caverna de sombras e cegaríamos para a contemporaneidade. 

Em ambos os casos, perderíamos a capacidade de ver pelos nossos próprios olhos (muito distinto de ver apenas com os olhos dos outros). E nenhum pensamento reclama tanto a comunhão dos olhares para fora e para dentro como o pensamento sobre a educação.

De resto, a educação é isso mesmo – um permanente movimento no sentido da decantação e intersecção desses olhares. Começamos por treinar e desenvolver apenas o olhar para fora. Durante alguns anos, permanecemos cegos para o que não existe. Só descobrimos o olhar para dentro e começamos a pressentir o que não existe quando se nos impõe ou nos é imposta a necessidade de interrogar e compreender o que vemos fora de nós. 

Este é o primeiro momento mágico da educação. O momento em que finalmente nos apercebemos de que há um imenso mundo para além ou aquém do mundo que espreitamos fora de nós. Um mundo reservado, único e tantas vezes incomunicável, feito ou fazível à nossa própria medida e, em tantos aspetos, insuscetível de ser entendido ou percebido pelos outros.  

É este mundo interior, só captável pelo olhar para dentro, que dá expressão à nossa identidade e singulariza o nosso destino. E é, precisamente, à medida que vamos tomando consciência desse mundo interior e que, simultaneamente, vamos aperfeiçoando a focagem do olhar para fora (ou seja, aperfeiçoando a nossa própria perceção e compreensão do mundo exterior) que avançamos para o segundo e decisivo momento mágico da educação – o momento em que, finalmente, podemos começar a escrever a nossa própria vida, única e irrepetível.”

Na primeira década deste século, o Ademar partiu para um lugar etéreo, onde, certamente, vive “memórias do futuro”. Nós por lá ficamos – pela Ponte – protegendo as crianças e cuidando dos professores a quem o Ademar dedicou o seu escrito.  


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