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Morada das Águias, 30 de maio de 2044

Netos queridos, 

Nesta semana, me dediquei à releitura das sábias palavras do Ademar. Nelas está presente a crítica poética de um Sistema, que buscava sobreviver a qualquer custo. E a defesa de uma escola resiliente…

“Poderão os cínicos de serviço dizer que uma escola de crianças tranquilas e felizes não é, necessariamente, uma escola eficaz, entenda-se por “eficaz” o que se quiser. Poderão até dizer que numa sociedade utilitarista que lida mal com as aspirações de felicidade das pessoas, uma escola de crianças felizes é uma escola em conflito e em rutura com a sociedade, cuja existência, por isso, a própria sociedade não deveria tolerar, em nome, porventura, do reconhecimento do “direito” da criança a ser educada na e para a infelicidade, ou seja, a ser preparada para o futuro.

O grosseirismo de um argumentário deste tipo, atualmente tão em voga em certos círculos mediocráticos que parecem professar, nostalgicamente, o regresso a uma escola de caserna “pura e dura”, não resiste à meridiana verificação (ao alcance de qualquer educador minimamente experimentado) de que os ambientes amigáveis e solidários de aprendizagem são precisamente aqueles que mais e melhor favorecem  a aprendizagem, porque é neles que as crianças, de facto, se sentem muito mais seguras, disponíveis e motivadas para aprender e, o que não é menos significativo em termos educacionais, para aprender umas com as outras e não apenas com os adultos…

Mas, a Escola da Ponte não é apenas (e já não seria pouco) um ambiente amigável e solidário de aprendizagem. Mais do que uma escola, ela é verdadeiramente, sem eufemismos, uma comunidade educativa – e daí o fascínio que ela exerce em todos aqueles que não se reveem no modelo totalitário de sociedade que nos rege e que ainda não desistiram de sonhar e de lutar por uma sociedade diferente. E quem diz sociedade – diz escola… 

A Ponte é, desde logo, uma comunidade profundamente democrática e autorregulada. Democrática, no sentido de que todos os seus membros concorrem genuinamente para a formação de uma vontade e de um saber coletivos – e de que não há, dentro dela, territórios estanques, fechados ou hierarquicamente justapostos. 

Autorregulada, no sentido de que as normas e as regras que orientam as relações societárias não são injunções impostas ou importadas simplesmente do exterior, mas normas e regras próprias que decorrem da necessidade sentida por todos de agir e interagir de uma certa maneira, de acordo com uma ideia coletivamente apropriada e partilhada do que deve ser viver e conviver numa escola que se pretenda constituir como um ambiente amigável e solidário de aprendizagem.

Mais do que um projeto de educação para a cidadania, o que verdadeiramente distingue a Escola da Ponte é uma praxis de educação na cidadania. Esta clarificação é verdadeiramente operatória para se poder entender o que se passa na Ponte. 

O sentimento profundamente arraigado no indivíduo de pertença a uma comunidade e a consciência que dele decorre dos direitos e deveres que nos ligam aos outros não se aprendem nas cartilhas ou manuais de civismo, mas na experiência quotidiana de relacionamento e colaboração com os que estão mais próximos de nós. 

O civismo não se ensina e não se aprende - simplesmente (como diria o publicitário Fernando Pessoa, “entranha-se”, isto é, organiza-se e pratica-se no dia-a-dia, de uma forma permanente, consistente e coerente. E é da prática do civismo que resultam a aprendizagem e a consciência da cidadania. 

Há muito que a Ponte o percebeu – e que age em conformidade.” 


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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...