“Tudo o que acontece na Escola da Ponte é, antes de mais, ”educação na cidadania”. Quando as crianças pesquisam, investigam e aprendem em grupo e as “mais dotadas” se responsabilizam pelo acompanhamento e o apoio à aprendizagem das “menos dotadas”. Quando as crianças, desde a iniciação, se habituam a pedir a palavra para falar e se habituam a ouvir os outros em silêncio e com a devida atenção. Quando as crianças que julgam saber mais ou ser mais capazes se sentem coletivamente estimuladas a oferecer ajuda e quando as que julgam saber menos ou ser menos capazes não se sentem inibidas de pedir ajuda. Quando as crianças, no debate diário, partilham coletivamente as suas angústias, os seus sonhos, as suas dúvidas, as suas opiniões, as suas propostas, e o fazem, sabendo que vão ser escutadas e respeitadas pelos demais. Quando, no início de cada ano escolar, as crianças se envolvem na eleição dos membros da mesa da Assembleia e quando, de uma forma extremamente empenhada e responsável, promovem a constituição de listas, elaboram, divulgam e discutem os respetivos programas de ação, organizam todo o processo eleitoral e participam na campanha… Quando, todas as sextas-feiras, na Assembleia, as crianças refletem sobre os projetos e os problemas da escola e, solidariamente, procuram contribuir para a sua concretização e resolução… Quando as crianças, todos os anos, contratualizam com os adultos a sua carta de direitos e deveres. Quando as crianças, todos os dias, vivem o exemplo de entreajuda e de estreita e fraternal colaboração dos seus professores.
Quando tudo isto e tudo o mais (que só visto) acontece num ambiente amigável e solidário de aprendizagem, a educação na cidadania é o próprio respirar e sentir da comunidade, não é uma enxertia de conceitos pretensamente civilizadores numa cabeça cujo corpo está em permanente e agressiva disputa e concorrência com os outros… Devemos à Ponte, entre muitas outras, esta lição – educar na cidadania não é o mesmo que educar para a cidadania.
Mas a mais extraordinária, cintilante e desafiadora lição que, porventura, devemos à Escola da Ponte (ainda que nem sempre devidamente enfatizada pelos observadores) tem a ver com a reformulação (absolutamente radical) dos papéis do “professor” e do “aluno”, enquanto membros de uma comunidade educativa.
A primeira grande surpresa que espera o visitante da Ponte é a aparente subversão de um conjunto de mecanismos e rituais que nos fomos habituando a associar à organização e ao funcionamento de uma escola. Na Ponte, tudo ou quase tudo parece obedecer a uma outra lógica. Não há aulas. Não há turmas. Não há fichas ou testes elaborados pelos professores para a avaliação dos alunos. Não há manuais escolares e, menos ainda, manuais únicos para todos os alunos. Não há toques de campainha ou de sineta.
Em certos momentos, o observador mais distraído até poderá supor que, naquela escola, não há professores, de tal modo eles se confundem com os alunos ou são (ou parecem ser) desnecessários.
À medida, porém, que o observador procura ver e compreender melhor o que se passa ali, ele acaba percebendo o sentido de tudo, a tal lógica singular de organização e funcionamento da Escola da Ponte. E percebe que a filosofia subjacente ao projeto pedagógico daquela comunidade é extraordinariamente simples e coerente com tudo o mais.”
