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Pragal, 24 de maio de 2044

A Cátia contava com o apoio incondicional dos pais dos alunos:

“Os pais estão, cada vez mais, cooperantes. As conversas com pais sobre o dia-a-dia dos seus filhos, a quase ausência de fichas de avaliação, a avaliação formativa começou a ganhar espaço, e os resultados são cada vez melhores. 

Eis quando recebemos (ironicamente em ABRIL!) da Câmara Municipal a novidade: a Escola seria encerrada no próximo ano letivo. 

Fiquei em estado de choque, ainda sem saber as razões. Até então, só tinha conhecimento de encerramento de escolas por falta de alunos, o que não acontece na nossa escola, tanto na sala de Jardim de Infância como na sala de Primeiro Ciclo. 

No dia seguinte, começamos a questionar sobre as razões, começamos a participar nas reuniões de Assembleia Municipal e de Freguesia (todas em streaming), a ter reuniões com a Junta de Freguesia. E a razão que mais alegavam era a turma ser constituída por quatro anos de escolaridade, que os “especialistas” apontavam como promotor de insucesso. 

Nessas reuniões participaram pais, ex-alunos, outros professores que conhecem o trabalho desenvolvido na escola, na tentativa de lhe provar que as razões alegadas não eram válidas. No entanto, continuam a alegar que turmas assim existiam antes do 25 de abril, e como tal é um ensino retrogrado. IGNORANTES (foi só um desabafo, peço desculpa).”

A Cátia não deveria pedir desculpa. Até lhe agradeci ter escrito em maiúsculas aquilo que os “especialistas” eram: IGNORANTES. E de uma ignorância autoritária, pois parecia que ainda viviam no “antes do 25 de abril”.

Eu compreendia a preocupação da autarquia e considerava correta a decisão de fechar o prédio da escola, enquanto as obras de restauro decorressem. A gestão do parque escolar era algo que estava dentro da alçada das autarquias, era competência das câmaras assegurar boas condições de funcionamento dos edifícios escolares. Mas, como dizia o ditado popular, que “não subisse o sapateiro acima da chinela”! 

A professora Cátia pretendia criar uma comunidade de aprendizagem, algo que o próprio ministério reconhecera como prática legal e cientificamente fundamentada (por exemplo, Ramon Flexa e Lauro Lima produziram teoria a propósito). 

Nessa nova construção social, aprendia-se em diversos locais (espaços com potencial educativo) da comunidade. Do outro lado da rua, mesmo em frente ao prédio da escola, havia uma coletividade, um pouco mais além, um ginásio e outros espaços de aprendizagem junto ao prédio da escola. Também havia casas dos alunos, ruas, praças, a Natureza… a Internet.

Numa comunidade de aprendizagem não havia professor solitário, nem segmentação em turma, ano de escolaridade, trimestre, semestre, ou ano letivo. E a sala de aula ira repousar no caixote do lixo da história da educação. 

“É estranho! Pode lá ser?!” – exclamou um autarca. 

Poderia parecer estranho que algo assim pudesse existir. Mas, já existia em outras paragens. E só poderia achar estranho quem fosse ignorante das coisas da educação.

Faltava criar uma equipe de projeto, cuidar da Professora Cátia, livrá-la da solidão da sala de aula:

“Estava mesmo sozinha na escola, digo como professora, claro. Não havia ninguém a quem pudesse recorrer.” 

A Cátia compreendeu que a sua solidão era da mesma natureza da solidão de muitos outros professores e dos seus alunos. E de uma profissão solitária monodocente passou para uma educação solidária, em equipe. 

O que poderia impedi-la de assumir um compromisso ético com a educação? 

O que poderia impedir que a mudança e a inovação acontecessem?

Nada!


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