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Trafaria, 26 de maio de 2044

Em meados do mês de maio de há vinte anos, mão amiga me enviou um vídeo, no qual um deputado da Assembleia da República assim se manifestava no plenário: 

A escola pública não são paredes, mas sim pessoas, todas as que constroem a comunidade escolar.

Precisamos de criar escolas mais livres, que valorizem os professores e profissionais, que envolvam os alunos, e que ensinem a igualdade, liberdade, e combatam o ódio. 

Precisamos de abordagens pedagógicas que favoreçam a cooperação entre os alunos e uma nova organização, não baseadas em turmas, mas em comunidades de aprendizagem

Precisamos de escolas livres, com mais autonomia, mais flexibilidades e de que integrem na Escola Pública novos modelos de ensino, centrados no aluno e na relação entre o professor e o aluno. 

Precisamos discutir a Escola Pública, de pôr a Escola Pública como prioridade, de trazer a Escola Pública para o Século XXI. 

Há muito para fazer na Escola Pública, de fazer democracia dentro das escolas, democratizando o seu funcionamento, envolvendo alunos e os jovens, porque a democracia e a cidadania acontecem, em primeiro lugar, na Escola, que deve ser a casa da democracia.”

Finalmente, uma voz atenta e fundamentada intervinha naquele hemiciclo. Nos anos que precederam essa intervenção, as comissões de educação entretinham-se em inúteis debates. Por exemplo, “tentando determinar o número ideal de alunos por turma e sala de aula”, no pressuposto de que deveria haver turmas e salas de aula, “achando” que escolas eram prédios.

O deputado Paulo Muacho recordava aos seus colegas aquilo que, há um século um Anísio brasileiro e um Sérgio português tinham predito: “que as nossas escolas tenham um padrão mais alto do que o Parlamento”.

Uma bela e merecida achega! Finalmente, alguém falava de Educação na Assembleia da República!

No mesmo dia dessa bela intervenção, a Professora Cátia agradecia aquilo que não precisaria agradecer:

“Obrigada, por estar atento à situação da nossa escola. Para que possa ficar a par do que já foi feito, passo a descrever:

participação em todas as assembleias municipais, com testemunhos de pais de alunos;

participação de ex-alunos, já adultos, que estudaram na escola;

participação em assembleias de freguesia, da mesma maneira que nas assembleias municipais;

visitas de vários partidos à escola, para poderem comprovar que, apesar de a escola precisar de alguma manutenção, não oferece nenhum perigo para as crianças;

entrevista e reportagem num jornal local;

intervenção da Diretora do Agrupamento, a comprovar a sua posição contra o encerramento da escola;

abaixo-assinado promovido pelos encarregados de educação;

petição pública promovida por uma encarregada de educação;

realização de uma reunião de Assembleia de freguesia extraordinária sobre o encerramento da escola, que foi realizada no dia 13 de maio;

Aprovação, por unanimidade, na Assembleia de Freguesia contra o encerramento da escola;

reunião de pais com o Executivo da Junta de Freguesia;

reunião com encarregados de educação, executivo da Junta e Direção do agrupamento com a vereadora da Educação da Câmara Municipal;

telefonema por parte da diretora ao ex-ministro João Costa, que se disponibilizou para falar com a Câmara a respeito;

apresentação por um partido, em reunião de câmara, de uma moção contra o encerramento da escola (5 a favor 6 contra);

colocação de uma faixa contra o encerramento da escola.”

Mas, a autarquia continuava a achar que a escola era um prédio e que deveria haver turmas e salas de aula, e ameaçava “fechar a escola”.


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