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Morsing, 25 de junho de 2044

No junho de 2020, o ser humano descia aos patamares mais profundos da bestialidade. Homens armados atacaram maternidades dos Médicos Sem Fronteiras, "para matar mães". A mídia assim descrevia esse hediondo crime: 24 pessoas foram assassinadas: recém-nascidos, mães e enfermeiras. Os atacantes entraram nas maternidades, disparando contra as mulheres que estavam nas suas camas. Onze mães foram mortas, três das quais estavam na sala de parto prestes a dar à luz ao seu bebé”. 

Vivíamos uma crise civilizacional sem precedentes. Vivíamos na proto-história da humanidade, servidos por uma Escola da Idade Média e desgovernos que falavam de “estados descontrolados”. 

No Rio da pandemia de dois mil e vinte, num dos estados ditos “descontrolados”, professores lançavam um irresponsável convite aos alunos: 

“Ide até a porta da escola, rapidinho, porque não vai ter problema!”. 

Em plena crise pandémica, por insana decisão ministerial, as inscrições para o Enem tinham sido abertas. Na Internet e nas bibliotecas caseiras, jovens se preparavam para essa inútil e nefasta prova, enquanto alunos de escolas da rede  pública, sem acesso à Internet, sem biblioteca e sem dinheiro, tentavam sobreviver. Mas, “todos poderiam disputar uma vaga na universidade pública”.

O amigo Tuck assim descrevia a triste situação:

“Os alunos mandavam suas atividades na plataforma e elas iam parar no limbo, porque a plataforma não funcionava, os fazendo gastar os poucos dados do celular. Muitos jovens mal conseguem entender uma orientação. 

Tenho recebido como devolutivas, até prints de aplicativo da renda emergencial. Essa é a realidade do morador desse país, que foi mal inventado. 

Sou professor da rede pública em uma escola de periferia. Sou professor num cursinho comunitário pré-vestibular. Hoje, uma aluna queria se inscrever no enem e esbarrou no temido "erro da data de nascimento", famoso no INEP. Tentei ajudar. Falei para ela ligar no 0800. Nada. O 0800 só atende telefone fixo e ela só tem celular. Tentei eu ligar no fixo. Deixei o telefone fora do gancho, porque cansei de esperar...”

Nunca deveremos deixar morrer a utopia, mas confesso que houve momentos em que senti um cansaço acumulado. Assistia à hecatombe da escola, há mais de cinquenta anos. Quase desisti. Era grande a vontade de ir plantar árvores, cuidar dos pássaros. Porém, decorridos alguns dias, ainda decorria o mês de junho desse distante dois mil e vinte, centenas de professores rejeitaram a imposição de um regresso à mesmice. Com as famílias e comunidades, aprenderam a ajudar a aprender. Num projeto de formação, que ajudei a elaborar, contagiados pelo vírus do Amor e da Coragem, professores recusaram “ensinagem à distância” e desenvolveram aprendizagem na proximidade física e virtual. Em comunidades de aprendizagem, partiram do que eram e do que sabiam fazer. Valorizando a sua competência de dar aula, definitivamente, se emanciparem de um obsoleto sistema de ensinagem e asseguraram a todos o direito à educação.

Na São Paulo de há exatos vinte anos, o projeto da Escola Aberta marcava o fim de uma época de esboços de mudança e o início de uma década de efetiva inovação. Ficava para trás um cemitério de projetos e um novo tempo se anunciava. Parece o final feliz de um conto para a infância: “e foram muito felizes para sempre”. 

Foi isso mesmo que aconteceu. Movimentos de mudança foram ganhando expressão, até meados de dois mil e vinte e quatro, quando surgiram as “assembleias de redes de comunidades de aprendizagem”. Disso vos falarei nas próximas cartinhas.


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