Pular para o conteúdo principal

Paracambi, 27 de junho de 2044

No WhatsApp, o amigo Celso convidou-nos para um salutar debate sobre um ou dois tópicos. Um dos tópicos de reflexão era o dispositivo central do modelo instrucionista de escola: a sala de aula.

Dois anos antes dessa conversa, eu havia sido convidado para redigir o prefácio da “Arte da Aula”. Esse livro reunia depoimentos de docentes universitários. Alguns deles foram para mim fonte de inspiração. E até tive ensejo de colaborar com um desses mestres, quando ele desempenhava o cargo de ministro da educação. Recordo o dia em que, reunidos no “Aprendiz”, o Renato me questionou

“Professor, você crê que a inovação nasce sempre na periferia do sistema?”

Respondi: 

“A mudança, que poderá levar à inovação deverá começar na escola, no ministério e na universidade, simultaneamente.”

Assim continuo a pensar. Aquilo que aconteceu, a partir de 2024, foi disso confirmação, como vereis.  

Considerei privilégio o acesso a depoimentos de mestres da arte de ensinar. Li e reli exercícios de uma escrita sensível, reflexo da consciência do destino da escola e da necessidade de humanização do ato de ensinar. Com a atenção que mereciam, saboreei descrições do ofício de professor universitário e as marcas que esse exercício imprimiu nas suas vidas e nas vidas dos seus alunos. 

Eram demonstração de que havia professores, que não usavam a pedagogia como mera ciência, mas como arte de ensinar. Exercendo o seu múnus profissional num tempo em que não tiveram que competir com máquinas inteligentes – creio que todos estavam aposentados – dispensaram tarefas de máquinas, mas não ficaram indiferentes à necessidade de transformação da educação. 

Quase todos esses mestres se decepcionaram com a falta de interesse de muitos alunos. Talvez não tivessem entendido a mensagem desses robotizados jovens. O desinteresse prenunciava o surgimento de uma crise de relações humanas, o anúncio da falência de um determinado modelo de sociedade, o “canto do cisne” do modelo instrucionista: 

“Enfrentei a apatia dos alunos. Sempre há uma meia dúzia que faz a diferença, que faz o curso valer a pena. Mas a maioria é, mais ou menos, apática. Eu me esforço para dar uma aula muito concentrada e, em geral, me irrito com qualquer comportamento dispersivo dos alunos. Como lido com a apatia na sala de aula? Apáticos por quê? Você precisa de técnicas de como despertar a atenção deles. É difícil, viu?”

O não reconhecimento da obsolescência do modelo instrucionista fazia com que esses “desabafos” fossem em menor número do que os depoimentos desses professores do ensino “superior”, refletindo satisfação. 

Era um tempo em que a maioria dos docentes do ensino “inferior” não se sentia profissionalmente realizada, não se sentia valorizada e apontava causas do desgaste: 

“Turmas com elevado número de alunos, comportamento indisciplinado e desmotivação, carga horária e burocrática, falta de apoio”

Alguns amigos diziam-me que “as aulas já não eram como as de antigamente”. Eu sabia que as preparavam com maior cuidado. Os professores definiam criteriosamente objetivos, rigorosos planejamentos e materiais. Mas, retomemos a fala dos mestres de antanho: 

“Dá impressão de que você está continuamente fora do assunto, pois a distância cultural é muito grande. Não sei o que faria, se tivesse que voltar a dar aula na universidade.” 

Os mestres, que eu reverenciava, não se davam conta de que o desgaste emocional dos professores era sintoma do fim de um tempo – o tempo da sala de aula. Não conseguiam entender que não eram somente os prédios que estavam em hasta pública.


Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...