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Vila Modesto, 24 de junho de 2044

No fundo do baú das memórias, encontrei um caderno com apontamentos de uma entrevista com um eminente filósofo e educador: 

“A escola precisa distinguir o que vem do passado e deve ser protegido daquilo que precisa ser deixado para trás, porque é arcaico”. 

Bem pregava Frei Tomás! Foram raros aqueles que escutaram o sábio e deixaram para trás o que era arcaico. Ao longo das primeiras décadas deste século, as reformas e os “pactos pela educação” não lograram emancipar-se do sarro da velha escola.

Há vinte anos, eu manifestava perplexidade perante tentativas de melhorar o que, há mais de um século, já não poderia ser melhorado. Ao longo do século XX, falharam nobres tentativas de mudança, movimentos renovadores. E, em pleno século XXI, a saga continuava. Uma escola, que quase se libertara de arcaísmos recebeu da secretaria de educação uma “proposta de retorno às avaliações bimestrais”. 

Alegando o “baixo rendimento” da escola (que, aliás, se provou ser falso argumento), a secretaria exigia uma “prestação de contas, como já ocorrera nas demais escolas” (leia-se: “prova” e outros arcaísmos). Era perigosa a crença nas virtudes das provas. Era preocupante saber que ainda havia secretarias que acreditavam na “objetividade” de um teste e o consideravam “instrumento de análise do nível de qualidade do ensino”. Era confrangedora a ingenuidade pedagógica de quem confiava no “IDEB” – índice de “decoreba” da educação básica. 

Eu temia pelas escolas à mercê de quem se atrevia a avaliar projetos que não entendia – restava saber quem avaliaria as secretarias de educação! 

Quem assumiria a responsabilidade dos nefastos efeitos de uma política pública desastrosa, que produzia um IDEB pífio? 

Sob a égide do ministério da educação, participei de muitas avaliações externas e reconheço a sua importância. Acompanhei secretarias de educação e técnicos competentes, que não foram totalmente possuídos por burocráticos cinismos. Aprendi com universitários, para os quais a educação não virou ciência oculta. Apoiei professores, que não se instalaram num comodismo acéfalo. Solidarizei-me com pais, no seu afã de libertar os filhos de uma educação arcaica. Mas, nos idos de vinte, chegavam más notícias. 

Na mesma semana em que escola antes referida era caluniada, recebi duas mensagens dececionantes. A primeira dizia: 

Infelizmente, não tenho boas notícias. O prefeito não quer desenvolver o projeto, aqui. Também puxaram meu tapete e, depois de muito sofrimento e reflexão, decidi solicitar minha saída da secretaria da educação. Percebi que a secretária está cercada por pessoas incompetentes e más, e não quero mais ficar num lugar onde eu não tenho espaço, apoio e autonomia para trabalhar”. 

A segunda mensagem confirmava o fim de outro projeto, que consumiu muitos dos meus solidários dias de fraterna ajuda: 

Sinto-me envergonhada e triste por ver que a premência do secretário está em resolver coisas burocráticas e deixar a educação em segundo plano. Não sei o que mais precisará acontecer em nosso país para que os educadores decidam empunhar a bandeira da transformação urgente”.

A perfídia da administração educacional causava baixas entre os defensores da Escola Pública. O cansaço dava origem a renúncias, desistências. 

Por que se consentia que perdurasse o que era arcaico? Por que não havia mais escolas como a Escola da Ponte? – me perguntavam.

Encontramos algumas respostas, formulando sete perguntas. Erradicamos arcaísmos, quando identificamos sete obstáculos… e aprendemos a ultrapassá-los.


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