O estudo tinha um título bem sugestivo: "Copianço nas universidades, o grau zero da qualidade". O autor do estudo referia que a carga moral da assunção de uma conduta desviante poderia ter calado mais do que um dos alunos inquiridos. Mas que, apesar desse possível desvio por defeito, seriam "três quartos" os que exerciam a arte de bem colar (copiar).
Os professores-polícias eram ineficazes face à criatividade dos alunos: um auricular escondido no cabelo comprido, uma mensagem no celular... No jogo do gato e do rato, o felino docente somente lograva desenvolver no rato discente competências e habilidades que reforçavam o faz-de-conta da avaliação por exame.
Aqueles que policiavam a realização das provas somente conseguiam, sem que disso se apercebessem, transmitir valores. Partindo do pressuposto de que todos os alunos eram seres potencialmente desonestos, estimulavam a deslealdade, a mentira, a dissimulação, a desonestidade, a falsidade… a corrupção.
Um professor-vigia de uma prova fora instruído pelo “manual do aplicador” a colocar os alunos a uma “distância prudente” uns dos outros. Sem nada afirmar, o não-verbal do inquisidor “Manual de Aplicação” falava mais alto do que o verbal, no pressuposto de que, numa “distância menor”, alunos iriam colar.
Com tal procedimento, o aplicador estaria a praticar o chamado “currículo oculto”, a transmitir valores negativos aos alunos, a deseducar. Como esse professor, para além de inteligente, era sensível e assumia individualmente responsabilidade pelos atos do seu coletivo, desobedeceu às ordens do “Manual do Aplicador”.
Dizia-nos o estudo antes referido que copiar fazia parte do currículo dos universitários, um mundo de hipocrisia, onde as notas refletiam mais a habilidade do que o conhecimento. Os exames somente traduziam "habilidades periféricas dos estudantes" e "a incapacidade real da universidade para medir o seu real desempenho".
Quase todos os inquiridos admitiram que "tanto copiavam os maus como os bons alunos" – o objetivo era conseguir o canudo, fosse lá como fosse, discreta denúncia de “uma frequência escolar mais orientada para o sucesso certificado e nominal do que para o sucesso substantivo e real".
Quando um ministro de triste memória quis ressuscitar os pretensos méritos dos exames, voltei à liça, para demonstrar que as provas pouco ou nada avaliavam. Terminei a série de artigos então publicados com um apelo aos professores. Pedi-lhes que fossem rigorosos na avaliação, para poderem dispensar inúteis exames. Pedi que rejeitassem a fraude dos exames, que recusassem o surrealismo de pautas trimestrais (ou semestrais) que, em escala ordinal, davam conta das classificações dos alunos, e que abandonassem práticas de avaliação obsoletas.
O sociólogo autor do referido estudo era digno da minha admiração. Sendo professor universitário, teve coragem de revelar obscuros bastidores da sua instituição. Lamentavelmente. foram poucos os que ousaram denunciar. Distribuindo certificados e diplomas, mas não cuidando de qualificar os seus alunos, as universidades davam significativa contribuição para aquilo que parecia ser um desígnio nacional, aquilo que o Darcy designava de “projeto”, mas que se assemelhava mais a um “caso de polícia”.
