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Cascavel, 30 de julho de 2044

Na última cartinha do mês de julho, pretendo concluir uma série dedicada à avaliação da avaliação. Partilhei convosco uma pequena parcela de um vasto acervo de episódios. Não me atrevi a mencionar uma parte significativa do anedotário, tal a incredulidade que inspiraram os episódios que foram sendo narrados, e apesar de não duvidar da honestidade dos professores confidentes. Portanto, devereis multiplicar por cem (ou por mil) o pasmo que vos tenha suscitado a sua leitura. 

A imagem que juntei a esta cartinha contém uma pergunta. Eu responderia que a Avaliação avaliaria ambos: o ensino e a aprendizagem. Ajudaria a resolver dificuldades de aprendizagem dos aprendizes e a colmatar dificuldades de ensinagem dos ensinantes. Mas, sobretudo, a avaliação deveria ser uma avaliação da avaliação que, nesse tempo, se fazia.

Variáveis de natureza socioeconómica e cultural interferiam no processo de aprendizagem. A Família e a Sociedade condicionavam a aquisição, produção e partilha de conhecimento. Mas, talvez uma efetiva Avaliação mostrasse que uma Escola a quem a Administração do Sistema impunha a prática de um modelo educacional obsoleto, ainda não conseguira ser “Pública” e talvez fosse a maior responsável uma hecatombe escolar denunciada em meados do século XX.

Reparai que não atribuo responsabilidade aos professores. Eles apenas eram coniventes, quando, por exemplo, não avaliavam o impacto das suas aulas de educação ambiental. Um jornal do julho de vinte e quatro (exatamente, há 20 anos) publicava um “alarme”:

“No domingo, a Terra registrou o dia mais quente alguma vez medido pelo homem. Trata-se de mais um recorde de calor batido nos últimos dois anos, de acordo com o serviço climático europeu Copernicus.

Sem as alterações climáticas causadas pelo homem, os recordes não seriam batidos com tanta frequência.”

Pois não! Então, caberia perguntar:

O que se ensinava nas aulas de educação ambiental? Que efeitos produziam? O que era, verdadeiramente, aprendido? O que era avaliado?

Competições, rankings, práticas e instrumentos de comparação de pessoas (como se fosse possível compará-las!) em que eram usadas ridículas expressões como “Professor do Ano” eram reflexo de uma cultura profissional feita de solidão e de autossuficiência. E o

O amigo Paulo estava atento ao descalabro e, usando de senso crítico e, falava da sua experiência de aluno, : 

“Na faculdade, fiz exames quando não havia alternativa, mas sempre que consegui não fiz, nem sequer testes. Uma vez, uma professora de cultura inglesa queria que eu fizesse exame. Como sou teimoso, disse-lhe que não, mas que fazia um trabalho, ou dois, ou três, para lhe entregar, sobre um tema qualquer. Ela deixou-me escolher. 

Passados uns tempos, entreguei-lhe uma dissertação sobre a capa do "Sgt. Peppers", dos Beatles, de como aquela obra de arte de Sir Pete Blake condensava um tempo e uma ideia, dentro de uma cultura. Ainda me ofereci para propor uma capa similar, mas com personalidades deste tempo, o do século XXI. 

A professora acabou a dizer-me que o que eu tinha construído era muito mais exigente do que fazer um exame.”

Infelizmente, raras eram as professoras atentas ao descalabro. E as escolas enfeitavam-se de “quadros de excelência” e de outras excrescências avaliativas.

Nos idos de vinte, hipotecava-se a competência de muitas gerações de professores, mas ainda seria possível suster a tendência para carpir a sina de ocupar os últimos lugares dos rankings internacionais. As profecias do mestre Agostinho poderiam concretizar-se.


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