Por finais do julho de há vinte anos, já muitos pais e diretores se reagiam, dizendo que os rankings das escolas não eram credíveis. Atentos à mercantilização da Escola Pública, com educadores atentos, partiram do questionamento dos rankings para reacender o debate entre o setor público e o privado.
As escolas privadas congratulavam-se com os resultados, enquanto pais e diretores das escolas públicas diziam que o ranking comparava o incomparável. Fosse como fosse, as preocupações com os rankings eram migalhas, se comparadas aos problemas que, a montante do sistema, condicionavam a aprendizagem – como o drama dos que abandonavam ou não completavam o ensino médio, entrando sem diploma no dito “mercado de trabalho”.
Nos idos de vinte, reinava o caos social, em grande parte resultante de um modelo educacional somente fundado na proposta instrucionista do século XVIII. Adentrávamos o século XXI ancorados em velhas e nefastas práticas, buscando no hemisfério Norte aquilo que tínhamos de sobra no Sul. Adiávamos uma catarse, que nos libertasse de atávicos procedimentos.
Há vinte anos, era imposto às escolas um modelo educacional desprovido de fundamentação científica. Com rankings ou sem rankings, a avaliação das escolas não poderia continuar a ser um entretenimento de ex-ministros e “especialistas” ignorantes de elementares saberes das ciências da educação. Boçal e impunemente, as criticavam, sem se aperceberem que essas ciências apenas tinham servido para ornamentar introduções de decretos. Urgia que lograssem entrar nas escolas e fecundar as práticas, pois, como escreveu a Adriana:
“Ainda há muitos educadores que perseguem o mito da turma homogénea, como se realmente existisse; se este tipo de turma algum dia existiu, atualmente encontra-se, sem dúvida, em vias de extinção”.
Dos estudos maiores aos menores estudos, nada se criava e tudo se copiava, produzindo conclusões em circuito fechado. Os pesquisadores adotavam um léxico velho de séculos, jogavam com conceitos reciclados, reinventavam nomenclaturas, reescreviam literatura de ficção científica, pois o fosso entre a teoria e a prática se mantinha ou aumentava.
Urgia conceber novas construções sociais de aprendizagem, que, gradual e prudentemente, dessem resposta a necessidades sociais do século XXI. Era preciso reestabelecer interconexão entre o desenvolvimento emocional, o social e o acadêmico, ir além da introdução de paliativos, num sistema de ensino que não ensinava.
Reafirmávamos que Escolas eram pessoas, que participam na produção conjunta de conhecimento, em espaços sociais de aprendizagem, dando sentido ao quotidiano e influenciando trajetórias de vida. Projetos já desenvolvidos no Brasil eram prova de ser possível a Mudança e a Inovação, a recriação da Escola Pública.
Em 2044, sabemos que estamos prestes a chegar à “Idade da Educação”. Mas já em 2024, a Escola carecia de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver, pois os projetos humanos contemporâneos não se coadunavam com as práticas escolares de que dispúnhamos.
Dever-se-ia abandonar estereótipos e preconceitos, transformar uma Escola obsoleta numa escola que a todos e a cada qual desse oportunidades de ser e de aprender. Para tal, bastaria que os educadores assumissem um compromisso ético com a Educação, regenerando o Sistema, humanizando os processos de aprendizagem.
