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Ponta Negra, 29 de julho de 2044

(continuação)

Sob o pretexto de completar a prédica suspensa, fui dizendo à minha amiga Alice que a indicação de valores (40%, 18 valores, 112 pontos...) servirá para enfeitar testes, mas pouco ou nada serve as intenções de uma avaliação sumativa. Não diz o que o aluno aprendeu, informa (e mal) o quanto aprendeu. Os testes, por si só, não fornecem indicadores fiáveis. 

Ela confessou que não sabia o que fazer, mas (que remédio!) lá teria de preencher as pautas, no fim do período. Ela e os outros professores que não se preocupavam com "coisas" de somenos importância. 

Com infinita paciência, fiz ver à minha amiga Alice que, numa escala de 1 a 5, um ponto, algures entre 2 e 3, é diferente dos outros. Que essa escala considera dois níveis negativos e três níveis positivos, e que, entre 2 e 3 temos uma situação de critério (o mínimo relativamente às aprendizagens pretendidas). Mas que critérios podem ser estabelecidos para uma escala ordinal, partindo de resultados quase exclusivamente extraídos de testes? 

Seria possível transpor os dados de uma escala intervalar para uma escala ordinal? No final de um período? E por que havia “período letivo”, “trimestre”, semestre”, “ano letivo”?

A Alice “não tugiu nem mugiu”. 

Ainda com a Alice, supostamente, do outro lado do fio do telefone (foi no tempo em que não havia celulares), fiz a síntese e a moral da história:

“No tempo da "escola seletiva", a essência do sistema de avaliação era a classificação. Que, num novo tempo, essa se transformara num óbice à mudança na avaliação. Que não seria possível “reter um aluno”, apoiando a decisão numa mera escala ordinal, pois a questão não residia em "reter" ou "não reter", mas em aprender ou não ter aprendido determinado objetivo ou conjunto de objetivos, de adquirir competências....

Ali chegado, já nem os sussurrados “hum... hum...” com que sublinhava, de quando em quando, a professoral exposição, se faziam ouvir. Cadê a Alice…? Apurei se ela ainda estaria do outro lado do fio.

"Estou, estou. Continua! Diz lá! – devolveu a Alice, indisfarçavelmente contrariada – "Estou a tentar seguir o teu raciocínio..."

Em nome da razão, não prolonguei o pedagógico suplício. E a Alice aproveitou a interrupção:

"Estás para aí com esses pormenores todos, mas, há uns anos, até houve um professor que teve a lata de me dizer "Ó colega, dê lá o 3 ao rapaz, para ele passar!" E eu lá dei, mas o aluno nem um 2 merecia, fica sabendo!"

Por acreditar na inteligência dos professores e na da Alice, em particular, derivei:

"Ó Alice, tu leste o que dizia o Perrenoud, há dias, no jornal "O Público"?"

"Não! Não li.”

(Sugeri que participasse de uma ação de formação. Mas, da formação ela nem queria ouvir falar):

“Só lá vou "pelos créditos... e pelos cabelos!")

"O Perrenoud dizia que "é preciso mudar a forma centenária como a escola se organiza, pois os professores e os alunos perdem o seu tempo uma escola assim organizada".
"Não estou a perceber aonde queres chegar."

"Ó Alice, porque não se interrogam as escolas sobre o modo como estão organizadas? Por que continuam "organizadas de uma forma centenária e a não fazer avaliação?”

A Alice respondeu que "sempre foi assim"... e amuou. 

Eu insisti:

"Se tu já percebeste que fazer e afixar pautas com números é pura perda de tempo e de energias, porque continuas a fazê-lo?"

"Isso não interessa. O que queres que eu faça, se estou sozinha? Se para lá vou falar destas "coisas" ainda me chamam maluca!..." – rematou a Alice –  "O que eu quero é que me ajudes a resolver esta "coisa" dos critérios".

A Alice não correu o risco “de lhe chamarem maluca”.


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