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São Miguel do Gostoso, 28 de julho de 2044

Lewis Carroll pôs a Alice à conversa com o Gato:

"Alice - Podes dizer-me, por favor, que caminho hei-de seguir a partir daqui?

Gato - Isso depende muito do sítio aonde queres chegar.

Alice - Não me preocupa muito onde vou chegar.

Gato - Então não interessa por que caminho hás-de seguir."

Por acaso ou talvez não, uma Alice ansiosa me telefonou:

"Desculpa estar a incomodar-te. Sei que o teu tempo é pouco, mas... Desculpa só te telefonar quando estou com problemas" – e foi direta ao assunto:

"Olha Zé, meteram-me numa equipa incumbida de elaborar "critérios de avaliação". É mais uma chatice por culpa do despacho trinta. E, agora, com esta coisa das competências, é mais difícil saber-se quando se deve dar um 2 ou um 3, não é?"

E esgotada a retórica da praxe, compreendi que a Alice não estava interessada em elencar critérios de avaliação, mas dar aos seus colegas alguma segurança no conselho de turma de fim de período letivo, que já se avizinhava. E dei por mim a compadecer-me da angústia da Alice.

Lá fui adiantando que definir "critérios de avaliação" não é o mesmo que ordenar "critérios de classificação", que a avaliação é um conceito mais vasto do que o de classificação, que a avaliação procura a posição do indivíduo relativamente a ele próprio, a objetivos e, por vezes, a um grupo, para identificar dificuldades, apontar soluções, para regular, facilitar e melhorar a aprendizagem, enquanto que a classificação determina a posição do indivíduo para o comparar com uma norma estabelecida, ou com posições obtidas por outros indivíduos. E por aí adiante... E nem a macei com o explicar da distinção entre grandezas qualitativas e grandezas quantitativas, entre variáveis discretas e variáveis contínuas, como se impunha para uma cabal distinção entre escalas.

"Pois... pois... está bem... Mas o que eu quero é orientação para fazer os critérios. Quando posso dar um 2 ou um 3" – vítima da tradição, a Alice sinonimizava avaliação e classificação, confundia rigor com raciocínio quantitativo. Estrategicamente, recuei o discurso para o registo do menor esforço: 

Na avaliação sumativa, a Alice não precisava quantificar e, dado que os juízos sumativos assentam em critérios para cada dimensão curricular, ela poderia fazer avaliação sumativa e não atribuir uma classificação, assim como seria possível classificar sem fazer avaliação sumativa.

"Está bem, Zé, és capaz de ter razão, mas o que é que eu vou apresentar aos meus colegas, na reunião? Eles não são tão complicados como tu!"

"Diz-me o que queres dizer com o ser complicado." – devolvi.

"Tu sabes o que eu quero dizer. Eles só querem saber como hão-de dar as notas. Não se preocupam com essas coisas,"

Não dei réplica às "coisas". Fiz-me sonso e contra-ataquei:

"Diz-me lá de que dados dispõem os teus colegas, para poderem dar as notas."

"Temos as notas dos testes e mais algumas coisas..."

Como voltávamos às "coisas", quis saber quais, mas a Alice titubeou, terminando a não-explicitação das "coisas" num ato de contrição:

"Eu sei que sou uma chata, mas é como se cortássemos o programa às fatias e depois as puséssemos numa folha...Pode estar mal, mas..."

Poupei-a ao arrependimento e reatei o diálogo:

"E quantos testes fizeste neste período?"

"Só dois, porque o Conselho Executivo diz que não há dinheiro para mais fotocópias."

Maieuticamente, questionei:

“Será possível “dar nota”, a partir “da nota de dois testes?”

Eu sei lá!” – respondeu a Alice – "Na faculdade nunca me falaram disso."

Pressenti o enfado da Alice, mas a conversa fluiu. Amanhã, vos direi como terminou.

 

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