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Barra do Garças, 22 de setembro de 2044

Há cerca de quarenta anos, uma pesquisa concluía que, até cerca dos cinco anos de idade, quase todas as crianças faziam perguntas de modo espontâneo:

“Por que é que o céu é azul? De onde vêm os bebês? Tio Zé, por que é que o teu olho é diferente do meu?” 

No final do ensino médio, apenas um por cento dos jovens ainda perguntava algo – doze anos de escutar respostas a perguntas que nunca fizeram assassinaram a curiosidade.

Vou fazer noventa anos e continuo tão perguntador como quando nasci. Quase nonagenário, mantenho sem resposta silenciosas interrogações: 

“Onde estou? Quem sou?” – E por aí vai… coisa de velho. 

Perguntador inveterado, dirigi ao professor António uma indagação, ao que ele respondeu: 

“É assim, porque sim!”

E por aí se quedou a conversa.

A minha desconfiança relativamente à eficácia e eficiência do trabalho em sala de aula começou bem cedo… e da pior forma. Há mais de oitenta anos, perguntei ao professor Vasconcelos por que razão eu tinha de aprender certos conteúdos, que ele tentava ensinar. Autoritário, como era apanágio de uma época de ditadura, respondeu:

“Quando fores grande, irás precisar!”

Já sou “grande” e quase nada desse “currículo” me fez falta. Não me fez mais sábio, nem mais feliz. O professor Vasconcelos — que descanse em paz e que Deus lhe perdoe a ingenuidade pedagógica — acreditou ter me ensinado, dando respostas a perguntas que nunca eu quis escutar.

Quando, na década de setenta, fui assistir a uma palestra do Professor Lobo, o submundo da escola da sala de aula se apresentou à minha compreensão. Lobo era professor há trinta anos. Contou que, durante duas décadas, sempre dera aula e castigara os alunos que não soubessem a tabuada… até que, certo dia, infligiu um castigo corporal a um aluno. Este, susteve o choro e perguntou: 

“Professor, por que nos bates? Por que não nos ensinas?”

Até então, Lobo era um professor como outro qualquer. Desde há dez anos, já não o era. Havia trocado o dar respostas sem perguntas pelo perguntar e ajudar a aprender. Deixara a sala de aula.

Todo mundo sabe que professor solitário em sala de aula é incapaz de garantir a todos os seus alunos o direito à educação. Por isso, nunca consegui entender a (antiética) resistência dos auleiros. Recordo-me do Professor Lobo e daquilo que, providencialmente, com ele aprendi, quando, anos atrás, isto escutei:

“Roberto, cadê o uniforme? Eu disse à tua mãe que o colégio disse que era obrigatório o uniforme na sala de aula! Não há mas, nem meio mas! Vai já vestir o uniforme! E volta rápido! Ouviste?”

“Sônia, não mexas no trabalho do teu colega!”

“Maycon, está calado!”

“Guris, eu já aviso. Se alguém sair da sala de aula sem a minha autorização, vai ter negativa no fim do semestre! E vou comunicar à diretora!”

O meu amigo e conservador professor Gustavo se interrogou e entrou em crise, quando lhe dirigi uma pergunta a que ele não conseguiu dar resposta: 

“O que se deve aprender (e não se aprende!) dentro das quatro paredes de uma sala de aula, que não possa ser aprendido fora delas?”

Fraternalmente, convidei a administração educacional a dar resposta a esta e a outras interrogações.

Por que  se continuava a impor às escolas o trabalho em sala de aula, se, nesse contexto, se sabia ser impossível garantir a todos os seres humanos o direito à educação? Essa atitude não configuraria, para além de ineficiência do Sistema, indício de crime de abandono intelectual?

A mesma pergunta dirijo aos eventuais leitores destas cartinhas. E que fiquem sabendo que, ao cabo de mais de meio século sem resposta, educadores éticos decidiram agir. 


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