Pular para o conteúdo principal

Leiria, 27 de setembro de 2044

Eis mais uma sugestão de “estudo de caso”.

Quando a Ana recebeu a infausta notícia, não queria acreditar. Dias antes, manifestara o seu regozijo pela celebração de um protocolo com o agrupamento de escolas e com a autarquia. A comunidade de aprendizagem surgia pujante e com reconhecimento das “autoridades”. 

O regozijo dava lugar ao desencanto e à preocupação. As “autoridades” alegavam “não terem percebido” (manifestação de analfabetismo funcional?) o conteúdo do documento que, voluntariamente, tinham assinado, e, portanto, declinavam responsabilidades.

Ao longo de décadas, eu aprendera a lidar com canalhas. Sosseguei a Ana. O projeto iria acontecer, nos termos do protocolo!

Vezes sem conta, meus companheiros de profissão suscitaram este diálogo:

“As escolas que você ajudou a criar não têm aula, nem turma…  Estão dentro da lei?

É evidente que sim.

Então, as escolas que têm aula estão fora da lei?

Sim, estão.

Por que diz isso?

Porque, do modo como funcionam, negam o direito a educação a muitos alunos. E esse é um direito inscrito na Constituição e na Lei de Bases!” 

Respondiam:

“Sim, eu sei que há leis. Lá isso há, mas…”

Mas… o quê? Por mais de cinquenta anos, eu ouvira esses “mas” e a expressão “a lei não permite”. Mas, a lei permitia. Bastaria requerer inovação normativa, para que a inovação educacional acontecesse. Bastaria criar um Grupo de Trabalho no ministério, que ajudasse os burocratas a entender que o seu consulado estaria prestes a acabar, e que as ciências da educação deixariam de ser ciências ocultas, ou literatura de ficção científica. Que, finalmente, a lei iria ser cumprida.

Embora soubesse das raízes de certos traços culturais, a resignação dos educadores me desgostava. Atitudes de silêncio e demissão eram causa direta de uma contraditória situação: a autonomia das escolas estava garantida por lei, mas estava ausente das práticas – naqueles ignominiosos tempos, imperava o medo de perder o emprego.

Em comunidade, educadores elaboravam projetos, que garantiam a concretização do direito à educação. Fizeram entrega de documentação e solicitaram o diálogo sobre o seu conteúdo. E, decorrido mais de um ano sobre o público compromisso assumido pelo ministério, o Grupo de Trabalho ainda não havia sido criado.  

As escolas sobreviviam num “faz-de-conta que serem autônomas”. Mais grave ainda era o fato de as práticas serem em tudo o opostas ao que estava escrito nos projetos – hierarquicamente obedecendo a “superiores hierárquicos”, as escolas estavam fora da lei. Ao instituir um quadro normativo subordinado ao paradigma instrucionista, a administração educacional entrava em contradição com documentos de política educacional por si mesma aprovados – essa contradição talvez configurasse falsidade ideológica. 

Acresce que, impondo práticas instrucionistas às escolas, a administração impedia que princípios constitucionais fossem cumpridos. Poderíamos inferir que incorria em outra ilegalidade: a do abandono intelectual de milhões de alunos. Esse abandono se refletia nos péssimos índices de desenvolvimento da educação, em evidências de ineficiência administrativa.

Se somarmos a esse rol de potenciais ilegalidades, situações de abuso de poder e episódios de assédio moral, poderíamos concluir que, nesse distante mês de setembro de 2024, o sistema de ensinagem sobrevivia imerso em corrupção moral e intelectual, a Administração recorria a todos os truques, para impedir que uma nova educação se manifestasse. Mas, uma nova educação não demoraria a chegar. 


Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...