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Lindoia, 29 de setembro de 2044

Nos difíceis tempos, de que vos venho falando, mal grado os avanços que a lei consentia, a escola brasileira continuava imersa em contradições, dividida entre uma escola dos deserdados e uma escola de pseudo-elites. 

Enquanto os herdeiros da plêiade educacional do Manifesto dos Pioneiros defendia que a educação deveria ser pensada a partir das comunidades, de modo que os processos de aprendizagem assumissem um papel transformador nas sociedades, ainda havia quem acreditasse que o modelo escolar instrucionista era único e que o prédio da escola era o único lugar onde se poderia aprender.

Até que chegaram tempos novos. Encontrei educadores, que faziam das suas escolas instrumentos de emancipação, para que um povo educado não mais aceitasse “as condições de miséria e desemprego como as que temos”. Nestas palavras do Florestan estava contido o drama que a herança escravagista e colonialista perpetuava: a de manter a maioria da população culturalmente alienada e afastada das decisões políticas. 

Estávamos em vésperas de mais um ato eleitoral e o Brasil padecia de um enorme déficit democrático e de cultura cívica. As escolas que, infelizmente, ainda tínhamos e que para tal contribuíam, eram objeto da crítica do eminente sociólogo.  

Falo-vos de Florestan, consciente da minha pequenez perante a obra desse mestre. Dele vos falo porque, tendo nascido num lugar como aquele em que nasci, tinha passado por situações idênticas às que passei e, sociologicamente, interpelava a prática da sala de aula, a concepção do professor como transmissor do saber, a hierarquização dos saberes, a reprodução de um modelo educacional excludente. 

No setembro de vinte e quatro,  já havia quem tomasse consciência de que “o que era brasileiro era bom”, de que seria preciso que os educadores brasileiros deixassem de se “nortear” ou “orientar” e suliassem as suas práticas. Também já havia pais de alunos conscientizados:

“Não tem sentido, nos dias de hoje, continuar submetendo o aluno a aulas convencionais, previsíveis, com provas e notas. Prefiro que minha filha tenha uma experiência humanística, motivadora, que a faça pensar de acordo com o tempo em que a gente vive.”

Nos anos cinquenta, uma linha de trabalho característica de Florestan foi o estudo das perspectivas teórico-metodológicas da sociologia, e os seus ensaios foram fundamentais para a afirmação da sociologia como ciência. Florestan não estava sozinho. A educação brasileira era pródiga em referências internas, mas a síndrome do vira-lata impelia à procura de sonhadas finlândias, na ignorância das finlândias domésticas. 

O Brasil dispunha de uma extraordinária plêiade de teóricos: Paulo Freire, Anísio Teixeira, Nise da Silveira, Agostinho da Silva, Milton Santos, Maria Nilde, Darcy Ribeiro, o piagetiano Lauro de Oliveira Lima… mas o Piaget importado prevalecia sobre o “produto nacional”.

No setembro de vinte e quatro, a minha amiga Emília organizou um encontro em que me foi dado conhecer gente sensível e digna da herança deixada pela ínclita geração, que foi a de Florestan. Agradeci o convívio que me propiciou novas aprendizagens e me deu a conhecer alguém, cuja fala me cativou e deixou com vontade de saber mais. 

Naquele fim de semana, os “improvisados” diálogos da Emília e do Cláudio, a intervenção anti-racista da Rosana, a da Raquel sobre educação integral, da Silvana, da Adriana e do amigo César honravam a memória de Florestan, anunciavam que um nova geração de educadores surgia, recuperando o seu legado e dispostos a operar transformações.


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