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Maricá, 25 de setembro de 2044

O prometido é devido, aqui vos trago uma primeira proposta de “estudo de caso”. Mais adiante, voltarei a falar-vos do primeiro protótipo de comunidade de aprendizagem. Vereis como os educadores autores desse estudo conseguiram ultrapassar obstáculos aparentemente intransponíveis.

A Rúbia Lóssio evitou falar do maior dos obstáculos encontrados – a difícil sustentabilidade financeira do projeto – mas o descreveu de modo brilhante:

“É chegar, construir e praticar! Venha! Não se acanhe, se avexe! Pois aqui é um lugar de renovação, de fazer crianças felizes, de mudança educacional, que evidencia valores na formação de uma consciência planetária. 

Como diz o Amigo Zé, é uma oficina de almas, porque “uma escola de cidadãos não pode ser uma ilha”. Há de se considerar que a “CALMA” – a Comunidade de Aprendizagem da Lagoa de Maricá – é um laboratório de mudanças necessárias na Educação. 

Como diz a escritora Clarice Lispector, tudo começa com um sim: quando uma célula disse sim a outra célula, a vida começou. Aqui, tudo começa pelos acordos de convivência, pela humanização, pelas relações sociais numa comunidade baseada na democracia, cidadania, justiça social – uma escola da vida. 

É preciso compreender que o sistema educacional vigente segue com projetos paliativos, práticas disfarçadas de inovações que se resumem ao aumento da competição e violência. Não queremos salvar o mundo, mas, queremos uma nova atitude que conceba um mundo de novos imaginários do trinômio da Escola da Ponte: autonomia, responsabilidade e solidariedade.

Em São José do Imbassaí, o nascer do sol vermelho-alaranjado se abre sobre uma lagoa que beija o mar, as biguás voam sobre a calma dos dias que se enfeitam para gerar uma energia social mobilizadora entre os tutores e a potência da comunidade. 

É um lugar abençoado entre a serra e o mar, berço de povos originários. Em 1832 Charles Darwin aqui aportou com sua equipe, visitou sítios arqueológicos e estudou o complexo ecossistema de restinga. Por aqui também passaram os jesuítas – em 1584, o padre Anchieta realizou “uma pesca milagrosa”. 

Pertinho da Casa onde viveu Darcy Ribeiro, começou este projeto inovador de compromisso ético com a educação. Aqui, se estabeleceu um novo paradigma educacional com o cariz da Escola da Ponte. Pelo propósito de transformar a aridez dos valores humanos, o Professor Zé lança o seu último projeto de vida profissional, numa nova cosmovisão de mundo, recompondo o estrago causado por um sistema doentio e dissimulado. 

Com determinação, disposição e vontade, a Bruna Caroline faz acontecer uma inovação juntamente com uma equipe de educadores éticos. Muito lutou para que esta comunidade de aprendizagem surgisse, contando com o apoio do Amigo Zé, que comprou o terreno e a casa destinada a ser uma ágora de comunidade de aprendizagem. Mas, o que é uma Comunidade de Aprendizagem? 

Ainda é um conceito em construção, uma nova conceção de mundo, onde não há separação do cotidiano com a cultura, com a sustentabilidade, com a economia, com a Natureza. A comunidade é um lugar de íntima originalidade de narrativas, de compartilhamento numa dinâmica lúdica entre os saberes (cultura), os sonhos (imaginário), e as oportunidades (cotidiano). É um lugar de exploração do território, uma referência inspiradora de forma coletiva, numa governança temporária, numa rede de investigação. É um processo criativo criado a partir das necessidades, priorizando as convivialidades, na intersecção entre o lugar de fala, a episteme, as crenças, o imaginário e o cotidiano.”


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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...