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Pedra do Macaco, 24 de setembro de 2044

Foram muitas as estórias contadas sobre um inexperiente professor que, em plena ditadura de Salazar, se deixou influenciar por um grupo considerado politicamente incorreto, que dava pelo nome de Movimento da Escola Moderna.  

Com professores "marginais" aprendeu uma máxima que o iria acompanhar na sua trajetória de profissional do desenvolvimento humano: olha para o que és (ou pretendes ser como pessoa e professor), não olhes para o que outros fazem (ou não fazem, ou não são). 

Ele leu tudo o que havia para ler (ou o deixavam ler), num tempo em que ninguém ouvira falar do Piaget. Se encantou com a leitura do Freinet do "texto livre", no original francês, que um exilado político lhe havia oferecido. Mas já começava a descrer da cartilha. Ele bem tentava imitar o Celestin e a Elise, mas os quarenta alunos, que havia herdado de um austero professor à moda antiga, não saíam dos canónicos "a vaca dá leite, ossos e carne", "a vaca é muito importante para a nossa alimentação etc." 

Naquele tempo, a palavra liberdade ainda inspirava em muitos espíritos sentimentos contraditórios. De modo que, quando colocados perante a possibilidade de rabiscarem "redações" a que o jovem professor teimava em chamar "textos livres", os jovens perguntavam: 

“É a lápis, ou a caneta? Quantas linhas se deixa depois do título? Quantas linhas manda escrever?” 

Naquele tempo, alguns sobreviventes da última "classe masculina" tinham na ponta da língua a tabuada, sabiam de cor as estações de caminho-de-ferro e o sistema galaico-duriense, desenhavam na perfeição a caneca da praxe e ainda sabiam entoar a música (já só a música!) do hino fascista "somos pequenos lusitos", que o tempo de o Jesus do crucifixo estar ladeado por dois ladrões ainda não ia longe e a Biblioteca Popular do Salazar não tinha sido desmantelada, apesar da ordem expressa dos novos poderes.

O professor desta estória já havia trocado o livro didático pelo “texto livre” e pelo “livro da vida”. “Invertera a aula”, com recurso a “ficheiros autocorretivos”. Já havia instalado a “imprensa Freinet” e feito funcionar a “correspondência escolar” e a “cooperativa escolar”. Realizara “assembleias de turma” e muitas “aulas-passeio”. Foi, então, que entendeu – dizem os brasileiros que os portugueses demoram a entender – o busílis da questão.

Eureka! O professor continuava sozinho, na sala de aula, com a sua “turma”! À semelhança de escolas Waldorf, escolas montessorianas e pedagógicos quejandos, ele enfeitara o sarro da “sala de aula” com uma parafernália de dispositivos escolanovistas, sem que, efetivamente, lograsse passar o centro do processo de aprendizagem do professor para o aluno. Até que a Ponte se fez.

Entre os meses de setembro e dezembro de 2024, disponibilizei o final da manhã de sábado (o início da tarde em Portugal) para realização de encontros de educadores, que tivessem tomado a decisão ética de Mudar e de Inovar. 

Renovei o convite para regenerar o Sistema e humanizar a Educação. Enviei-lhes alguns documentos e propus que cumprissem algumas tarefas primordiais.

No último sábado desse setembro, “saí da cena formativa” e lhes pedi que, na minha ausência, conversassem sobre as dificuldades até então sentidas. Pedi-lhes, também, que registassem tudo o que fosse dito e que iniciassem “estudos de caso”, na busca de explicações e modos de ultrapassar obstáculos. 

Ausente do terceiro encontro de formação de formadores, iniciei a escrita de rascunhos, que poderiam servir de base à elaboração de “estudos de caso”. Amanhã, vos darei conta do primeiro.


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