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Recife, 21 de setembro de 2044

Neste dia de há vinte anos, saí da “Madre de Deus” convicto de que haveria quem reagisse positivamente ao meu convite à mudança. Era uma escola merecedora de admiração pelos valores visíveis numa prática feita de amorosidade e intuição pedagógica. Pessoas como a Christiana e a Rosângela me conferiam alento para resistir à tentação de desistir. Porque as notícias de jornal a isso me convidavam:

“Adolescente que atacou colegas pesquisava sites nazis e mostrou competências intelectuais que causaram surpresa (sic). O rapaz de 12 anos esfaqueou 6 colegas, numa escola da Azambuja, com uma faca de cozinha e pode ir para um Centro Educativo.”

O Sistema punia com a expulsão quem precisaria de compreensão e ajuda. A sociedade hesitava entre proibir o uso de celulares em sala de aula – demonizando o aparelho que, em tese, era responsável por desvios de “comportamento” (sic) – e o acesso indiscriminado à Internet. Mais uma vez, se produzia um falso dilema.Necessário seria ensinar a usar o celular/telemóvel.

A Mãe Carolina publicou um “Manifesto”:

“Pesquisas médicas e evidências científicas vão se acumulando e sendo atualizadas sobre os prejuízos à saúde, quando ocorre o uso precoce, excessivo e prolongado das tecnologias, durante a infância e adolescência. 

A Sociedade Brasileira de Pediatria elaborara um Manual de Orientação, para a conscientização sobre o uso de telas, os principais problemas médicos e alertas de saúde de crianças e adolescentes na era digital: dependência digital e uso problemático das mídias interativas; problemas de saúde mental: irritabilidade, ansiedade e depressão; transtornos do déficit de atenção e hiperatividade; transtornos do sono; transtornos de alimentação: sobrepeso/obesidade e anorexia/bulimia; sedentarismo e falta da prática de exercícios; bullying & cyberbullying; transtornos da imagem corporal e da autoestima; riscos da sexualidade, nudez, sexting, sextorsão, abuso sexual, estupro virtual; comportamentos auto lesivos, indução e riscos de suicídio; aumento da violência; problemas visuais, miopia e síndrome visual do computador; problemas auditivos e PAIR (perda auditiva induzida pelo ruído); transtornos posturais e musculoesqueléticos.”

Talvez não fosse do conhecimento dos desgovernantes este repositório de perdas e perigos. Os desgovernantes jamais admitiram a sua responsabilidade pelas lesões causadas no corpo e no espírito dos infantes. E despenderam fortunas em contratos firmados com empresas do digital e canais de TV. 

Nem seria necessário evocar episódios como os de Columbine, ou do Realengo, protagonizados por ex-alunos, que voltavam à escola para matar seus colegas e professores. Três alunos colaram uma professora na cadeira, foram expulsos e transferidos para outras escolas. Este lamentável episódio teria sido o corolário da tolerância do intolerável. Mas porquê criminalizar a indisciplina, agindo sobre consequências, se já era tempo de agir sobre as causas? De que serviria expulsar alunos? A violência seria resposta para a violência? Se o discurso era unânime – É preciso reforçar a autoridade dos professores! – a prática contrariava o discurso. A regra era a transferência da autoridade do professor para os órgãos de gestão e para burocráticos procedimentos disciplinares.

Autoridade não rima com controlo, imposição, submissão. Etimologicamente, a palavra autoridade significa “ajudar a crescer”. Ajudar a crescer pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação.


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Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...