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Grande Flor de Pedra, 26 de outubro de 2044

Netos queridos, estareis, certamente, recordados da crítica do instrucionismo que, magistralmente, o meu amigo Celso descreveu, num tempo em que a escola de massas fomentava a destruição em massa. A hegemonia instrucionista ignorava as contribuições das ciências da educação. Mas, a voz do Celso e as de outros mestres se fizeram ouvir. 

A máxima do Walt "The way to get started is to quit talking and begin doing" teve tradução num ensaio publicado por esse meu amigo. Com a devida vénia, cito o Mestre:

“O ser humano se constitui por sua atividade, em todos os aspectos (condição humana: não nascemos prontos). 

O conhecimento é estabelecido no sujeito por sua ação sobre o objeto. O conhecimento não se dá por “osmose”: não adianta o sujeito estar ao lado, em contato com o objeto, se não atuar sobre ele. 

Dois sujeitos podem estar realizando a mesma ação — por exemplo, ouvindo o professor —, mas com graus de interação com o objeto de estudo bastante diferentes. Isto significa que não basta a ação; tem de ser uma ação consciente e voluntária, portanto, intencional. Tal perspectiva se contrapõe à ação mecânica, ao “programa” rígido (como um chip implantado). 

No decorrer do processo de conhecimento, o sujeito precisa se expressar. O ciclo de aprendizagem só se completa com a expressão por parte do sujeito. São pouquíssimos os espaços de expressão dos alunos durante as aulas. O grande espaço costuma ser nas famigeradas provas (geralmente vinculadas a processos classificatórios, para fins de exclusão), onde os conteúdos devem ser reproduzidos, “devolvidos” (educação bancária-Freire). 

Como não há atividade verdadeira, como não se desenvolve autonomia ao longo dos (longos) dias letivos, na expressão não há criação, não há autoria. 

Diante de uma pro(im)posta de escrita, por exemplo, uma fala inocente, e relativamente recorrente, do aluno denuncia a grande farsa, o grande equívoco da prática instrucionista: 

“Professora, posso escrever com as minhas palavras?” 

É muito triste! Aprendeu, desde muito cedo que não pode escrever com as suas (dele aluno) palavras, mas com as palavras do professor e/ou do livro didático (...) A partir da abordagem dos fundamentos epistemológicos vê-se o grande equívoco da prática instrucionista.” 

A minha segunda vida, vivida em solo brasileiro, deu-me a conhecer teóricos de primeira água, críticos do modelo instrucionista. Sociólogos da educação cultores de Bordieu, denunciando a reprodução escolar e social. Filósofos da educação neomarxistas apontando a escola instrucionista como aparelho ideológico do Estado. Professores de História da Educação questionando a manutenção de um sistema engendrado na Prússia do século XVIII e na Inglaterra do século XIX. Pedagogos escolanovistas demonizando o magistercentrismo. Psicólogos da educação venerando os piagets da vida. Filósofos da educação apelavam a transições paradigmáticas. Epistemólogos dissertando sobre Khun e transição paradigmática. Todos (teoricamente) se declarando paladinos defensores da Escola Pública.

Se a produção científica denunciava “a grande farsa, o grande equívoco da prática instrucionista”, por que razão ela se mantinha? Onde encontraria a Administração do Sistema legitimidade para a impor? 

Era fácil encontrar a resposta. Paradoxalmente, esses sociólogos, filósofos, historiadores, pedagogos, epistemólogos, psicólogos e políticos davam aula em salas de aula, contribuindo para a reprodução escolar e social das práticas que (teoricamente) criticavam.


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