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Fidelândia, 22 de novembro de 2044

A Vida de Darcy Ribeiro foi um contínuo ato de Amor... e de coragem. Enfrentou uma “crise”, denunciou um “projeto”. Não se conformou – se indignou. 

Quase três décadas decorridas sobre o seu desaparecimento, o seu legado era objeto de apropriação e deturpação – muito se teorizava e quase nada se praticava.

Em tempo de eleições políticos oportunistas e de baixo estofo moral evocavam o seu nome e obra. Eleitos, não praticavam Darcy. Nas universidades, em congressos, formações, não faltava quem usasse e abusasse da memória do Mestre. Eram darcyniano não-praticantes, áulicos operando a segunda morte de Darcy – a morte da memória. Na política, na Universidade, no chão das escolas era escasso o número daqueles que o celebravam condignamente, honrando a memória, praticando Darcy.

Ao longo do século XX, o Brasil foi pródigo em fazedores de boa educação. E um português ilustre se juntou a uma plêiade de sábios, ignorada pelos brasileiros. Entre eles, o Mestre Agostinho, para quem o mais importante do que educar, seria evitar que os seres humanos se deseducassem, pois “cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta”. 

Esta asserção aplicava-se plenamente aos tenebrosos tempos vividos por volta de 2024. Políticos celebravam a memória de Darcy em comícios e festanças, enquanto a memória de Darcy agonizava nas salas de aula instrucionistas. Palestrantes enriqueciam debitando frases de Darcy em palestras de power point e saliva, traindo Darcy nas salas de aula da universidade.

Agostinho acreditava sermos capazes de reencontrar o que em nós é extraordinário para transformar o mundo. E agiu em coerência com as suas convicções. Ajudou a criar universidades, tertúlias, institutos. Traduziu para a língua brasileira a obra de Montessori e de outros escolanovistas, ousou a ruptura com o instrucionismo, gesto poético de quem aprendeu a arte de colocar o sonho em ato. 

Debaixo de uma mangueira próxima da faculdade de Pedagogia da Universidade de Brasília, escrevia poemas, que distribuía por alunos, professores e candangos. E, quando propôs que se trocasse o lema “ordem e progresso” por “liberdade e desenvolvimento”, sofreu as consequências da sua civil desobediência e coerência. 

Agostinho amou e celebrou, viveu como um franciscano, porque sabia que nascemos para criar e que a vida deve ser gratuita. Quando puderdes, lede o Manifesto lançado por educadores para quem Agostinho continuava a ser inspiração, educadores que não deixaram morrer a criança grande que os habitava, que perceberam o significado da entronização da criança na Festa do Divino, objeto de muitas de agostinianas reflexões. 

Etimologicamente, a palavra crise – do grego Krisis – designa um momento crítico.  Quarenta anos após a brasileira despedida de Agostinho, a educação daquela que foi a sua segunda pátria continuava imersa numa crise de séculos, com a Educação à deriva, pois quem a poderia transformar não tinha poder e quem tinha poder não a transformava. 

Agostinho partiu de Brasília para Portugal, quando a ditadura destruiu o projeto da faculdade sonhada para Brasília, quando a “pátria mãe andava distraída em tenebrosas transações” e a ditadura levava Darcy ao exílio. Com Darcy, na Brasília do início dos anos sessenta, fundou um Instituto de Letras e concebeu um projeto de universidade.

Agostinho lançou sementes de mudança na educação, no reconhecimento de que não existe alternativa à concretização de utopias. E novas utopias se anunciaram, no dealbar de vinte e cinco.

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#Educação #JosePacheco #ComunidadesdeAprendizagem


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