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Brasília, 29 de dezembro de 2044

Nos derradeiros dias de vinte e quatro, dei por mim em amargas memórias. Lembrei-me de um empresário que queira “salvar vidas de jovens”. Dizia ele que a escola da aula os matava e que fazer contraturno de escola era como tentar “enxugar gelo”. Pediu-me para “fazer uma escola como a Escola da Ponte”

Com a Edilene, a Claudia e uma extraordinária equipe de educadores, ajudei uma ONG a libertar-se do assistencialismo e a fundar a Escola do Projeto Âncora. Foi considerada por curadorias internacionais como uma das melhores escolas do século XXI. Salvou muitas jovens vidas. Até que a maldade humana extinguiu esse projeto.
Voltei ao convívio de educadores, que tentavam “salvar vidas”. Em meados de janeiro de 2015, no seu gabinete da Secretaria de Educação, um homem bom de nome Júlio me recebeu. No início da reunião, comentou:
“Desde que assumi o cargo de secretário, já fiz muitas reuniões. Esta é a primeira em que nesta secretaria de educação se fala de… educação”.
Tal como o empresário Walter, o Júlio queria salvar vidas de jovens.
O Júlio levou-me a visitar um conjunto de presídios, que dava pelo nome de Complexo Penitenciário da Papuda. Percorremos a ala dos jovens considerados infratores. Dali, fomos para a Unidade de Internação de São Sebastião, onde jovens já cumpriam sentença. No regresso, pediu-me que elaborasse um projeto para salvar vidas de jovens.
Respondi que poderia ajudá-lo, mas que eu estava mais interessado em desenvolver um projeto, que evitasse a necessidade de haver prisões como a Papuda e unidades de internação. Isto é: conceber e desenvolver um projeto a montante do sistema, para não haver necessidade de medidas de compensação e correção, a jusante.
Em 2017, a partir do CEF 04 do Paranoá, o projeto da primeira comunidade de aprendizagem do Distrito Federal começou a tomar forma junto ao conjunto habitacional do Paranoá Parque. Fruto de uma construção coletiva, entreguei à secretaria o Projeto Político-Pedagógico, o Regimento Interno e uma minuta de Termo de Autonomia.
Aprovados os documentos e após encontros com a Coordenação Regional, foi publicada a portaria de criação da Escola Classe/Comunidade de Aprendizagem do Paranoá – a CAP.
A educação do século XXI chegava a Brasília, uma chegada adiada por décadas de investimento num modelo educacional causador de milhões de “mortes de jovens”. Mas, não há mudança de comportamento sem mudança de valores – e não tardaram as reações.
Mães e professoras de outras escolas falaram com a coordenadora de área. Entusiasmada, a coordenadora consultou a secretaria. Logo se desentusiasmou, porque “alguém” da secretaria, deste modo, a proibiu de apoiar o projeto
Alguém” da secretaria retirou documentos do processo e disse que, ou fazemos do jeito que ele quer, ou não fazemos o projeto.
Ameaçou-nos. Disse que, se apresentarmos o nosso plano de trabalho, ele não o vai aprovar. Que temos uma de três opções: ou peitamos e não anda; ou retiramos o projeto; ou trocamos este projeto por outro.
Tentamos obter mais informações, mas nada mais disse.
Isto é um pântano!”
Obediente aos “alguéns superiores”, a coordenadora apagou mensagens de WhatsApp e se silenciou.
Quem seria esse “alguém”? Um homem? Uma mulher? Um coletivo? Algum alienígena? Esse personagem sinistro que, à-vontade, se movia nos labirintos dos ministérios tinha um nome: corrupção. E a CAP se afogou num pântano de corrupção intelectual e moral.
Nos anos que se seguiram, muitos outros projetos desapareceram. Mas, em 2025, o Amor aliado à Coragem reapareceu... para salvar vidas.

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