Pular para o conteúdo principal

Imbassaí, 22 de fevereiro de 2045

Deixo-vos com mais alguns excertos de mensagens, que denotam o pulsar de uma comunidade, que gente má tentou destruir.

Reitero aquilo que vos disse: comprei o terreno, para uma comunidade, não para mim. E, dado que eu fizera “voto de pobreza” e não queria ser proprietário do que quer que fosse, pedi uma pessoa que fosse a “proprietária”. Com ela fiz um acordo: ficaria com metade, entregando a outra metade à guarda de uma comunidade.

Durante algum tempo, lá morei, ajudando a criar condições de salubridade, contribuindo para alimentar crianças famintas de pão e de afeto. Depois, fiquei por perto e disponibilizei o meu espaço, para que voluntários o habitassem.

Um topógrafo fez o estudo da divisão do terreno e apresentou uma proposta. A “proprietária” concordou com a proposta. O processo se completou com a criação de uma associação, que iria gerir o projeto. E eu sugeri que ela entregasse metade da propriedade à comunidade, ou que fizesse um “contrato de comodato” (direito de superfície) com a associação.

Nada disso aconteceu. No janeiro de vinte e cinco, ilegalmente, a “proprietária” e outras pessoas tentaram “desativar” uma associação, entretanto constituída para gerir um projeto. Lede o que ficou gravado numa rede social, dito por uma voluntária.

“O L. chegou ❤❤ Ele pode ficar na sua casinha? Que dia tu retorna?”

Zé, a C. chegou aqui com um senhor dizendo ser topógrafo que veio fazer orçamento.”

“Posso pedir ao A. para nos ajudar a preparar os termos de responsabilidade e autonomia? É preciso saber se vamos ser ONG, fundação, instituição...”

“Precisamos de doações para nossa festa. Eu mandei mensagem a algumas pessoas. Conseguimos um pula-pula de graça. Precisamos de prendas. Comidinhas e bebida. Já temos pipoca, canjica, arroz-doce e milho. 🥰 ❤

A minha filha está ajudando. Lavou o banheiro, arrumou o quarto. Recolheu as roupas. Está cuidando com responsabilidade dos animais. Me fez café ontem. A coisa mais linda. Bagunça um pouquinho pra fazer as coisas. Mas ela está aprendendo né?!”

“Me diga uma coisa. O nome da nossa comunidade será mesmo Comunidade de aprendizagem Lagoa das Amendoeiras?”

Uma comunidade começava a tomar forma. Até ao momento em que a corrupção moral se manifestou. A “proprietária” renegou o acordo firmado e, por meios ilícitos, tentou destruir a associação. A comunidade ficou à mercê de gente de baixa estirpe moral. E eu lancei um apelo a juristas fiéis ao projeto, para que interviessem e impedissem que a associação fosse destruída.

Mensagens de apoio chegavam, quase diariamente. Como a da Clarice:

“Boa noite, Zé! Como você está?

Tenho lido diariamente suas cartas, ao mesmo tempo que nos alerta aos perigos, nos faz acreditar nos caminhos possíveis da tarefa árdua de fazer a mudança acontecer. Conte comigo!

Por favor, me digas como posso apoiar/colaborar de forma mais efetiva com o projeto.

Não desistiremos!

Avante!”

Cerca de uma centena de educadores solicitaram serem sócios da Associação e muita mais gente ética se juntou num verdadeiro coletivo, numa Assembleia das Redes de Comunidades de Aprendizagem, na intenção de ajudar esse e outros projetos em risco de desaparecimento. E perguntavam:

O que irão fazer os membros da Associação? Cadê a fidelidade a princípios, a coragem, a decisão ética?

O que irá fazer o Ministério Público? E a Defensoria Pública?

Por que razão os conselhos tutelares não intervêm, para cumprir o E.C.A. e proteger crianças e uma comunidade feita de gente humilde e pobre?

Permitirão que crianças sejam vítimas do egoísmo e de corrupção moral?

Postagens mais visitadas deste blog

Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...