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Itaipu, 23 de fevereiro de 2045

Netos queridos, nesta cartinha, concluo a descrição de um lamentável episódio, para que os vindouros fiquem sabendo de acontecimentos de tempos sombrios. Perguntastes por que razão vos conto “estórias de antigamente” e eu vos digo que o “antigamente” não está tão longe quanto possa parecer.

As casas da Comunidade eram da Comunidade. Só pessoas da comunidade e voluntários as poderiam utilizar. Foi isso que acordei com a “proprietária”. Qualquer “invasão” de alguma das casas seria considerada ilegal. Entreguei a minha biblioteca à guarda da Associação da Comunidade de Aprendizagem da Lagoa. Seria necessário exercer vigilância, para que ela não fosse devassada. Nas redes sociais, recebia mensagens como estas:

Iniciaremos fundamentos de matemática, vamos usar a plataforma Khan. Descobri lendo um livro da nossa biblioteca…”

Eu mantinha ajuda “científica” e as leituras fertilizavam as práticas:

“Hoje foi incrível. Iniciamos projetos. Grupos de responsabilidade. Escolha de tutor. Pesquisa. Apresentei portfólio aos tutores. As crianças escolheram tutores para projetos.

As partilhas de aprendizado são feitas no final de cada dia, ou no final da semana? Partilhas em grupo acontecem com todos, independente da idade? Se o tutorando quiser trocar de tutor, está tudo bem? Ou existe um tempo para que ele permaneça com este tutor?

Cheguei da Flim agora! Aconteceu uma conversa com Conceição Evaristo. Depois encontrei a Conceição e falei sobre a comunidade. Não sei se existe algum diálogo entre vocês, mas acredito ser uma pessoa que se uniria a nossa comunidade de aprendizagem.

Floresci como a primavera, devo estar errando, mas sei que estou acertando também. Vejo uma escola aqui, tenho me esforçado para que todos vejam também, é um processo. Assim como respeito o tempo das crianças, estou respeitando o tempo dos tutores.

Ontem estudei a LDB e algumas leis que pretendo cobrar que sejam cumpridas. Estou buscando ajuda para a comunidade. A S. mandou o projeto e está aguardando agora um retorno nossoSe apresentar a P. a ideia de fazer uma fundação acredito que ela aceitaria e iria amar o desafio.

Iniciamos um projeto de teatro com as crianças da comunidade. Tem algum projeto que poderíamos desenvolver com as mães das nossas crianças? Todas sofrem muito em seus relacionamentos afetivos. Ontem a mãe do N. enviou mensagem pedindo ajuda. Fiquei preocupada com ela. Não é a primeira vez que desabafam comigo.

Nosso bebê ficará aqui, o irmão mais novo das crianças. Ontem o Luís estava procurando um parceiro para o xadrez. As crianças estão perguntando porque você não veio jogar o xadrez.

Estou a aprontar coisas boas por aqui 😬Este lugar já é outro. Cheio de amor, alegria e compaixão. Tu és o elo. E te amamos demais!”

Durante mais de dois anos, paguei quase todas as despesas inerentes ao projeto. Mas, em 2025, fui vítima de um roubo, fiquei sem possibilidade de continuar o “financiamento”. Tanto bastou para que a comunidade começasse a definhar às mãos de quem quebrara acordos e tentava “expulsar a associação” do seu lugar por direito.

Ao longo desse tempo, foram muitos os visitantes, foram muitos os “estudiosos de novidades” que por lá passaram. Onde estariam, quando sucederam as tentativas de destruição da associação e da comunidade? Por onde andariam os cientistas da educação? Estariam distraídos, ou “metendo a cabeça na areia”?

No fevereiro de há vinte anos, era necessária uma intervenção urgente, para que a maldade não voltasse a triunfar, para que não viéssemos a ter vergonha de sermos honestos.

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...