Pular para o conteúdo principal

Minas Novas, 27 de fevereiro de 2045

Nos idos de vinte, foram realizados atos eleitorais, nos quais, os candidatos derrotados não reconheciam a derrota e acusavam o processo de corrupto. Talvez tivessem alguma razão... Nesse tempo negacionista, eleitores depositavam confiança em políticos corruptos, elegiam políticos xenófobos e até fascistas, davam o seu voto a gente boçal. Num tenebroso tempo de moderna barbárie, a falácia, o embuste e a mentira alimentavam o discurso político. Cadê o exercício da cidadania?

Os dicionários diziam ser a cidadania o exercício do “direito de cidade”. Dizia-se que o direito de cidadania se exercia quando se atingia a idade requerida para exercer direitos políticos estabelecidos na Constituição. Mas qual seria essa idade? Aquela que a lei outorgava aos que, já crescidos, contra ela atentavam?

Por que não partir do princípio de que a cidadania se aprendia no exercício da cidadania?

Conheci crianças que exerciam cidadania plena, em espaços de liberdade responsável. Também conheci adultos, com a idade requerida para o ser, cuja cidadania deixava muito a desejar. Recordo um dia em que levei os meus alunos a uma sessão da assembleia nacional.

Quando eles começaram a apontar para um deputado, que estava dormindo, arrependi-me de os ter levado àquele hemiciclo.

Quando eles me perguntaram por que alguns dos deputados liam o jornal, pensei em ir embora.

Quando a maioria dos deputados manuseava celulares, alheios ao discurso do tribuno, as crianças questionaram:

“Professor Zé, por que eles não estão com atenção ao senhor que está a falar no microfone?”

“Que falta de respeito!” – comentou outro dos meus alunos.

Não poderia continuar a expor os meus alunos aos maus exemplos dos representantes da nação. E dali os levei para uma biblioteca pública.

Mais ou menos por essa altura, conheci um professor de Filosofia, que dava aulas de… cidadania. Disse-me que a sua maior referência era Immanuel Kant. Despertou-me a curiosidade, levou-me à pesquisa.

Efetivamente, o eminente filósofo discorria sobre a saída do homem da sua menoridade. Segundo esse pensador, o homem era responsável pela sua saída da menoridade. Kant definia essa menoridade como a incapacidade do homem de fazer uso do seu próprio entendimento autonomamente, ou seja, sem a tutela de uma razão alheia.

Na nossa escola, não havia “aulas de cidadania”. Havia cidadania. No decurso de uma reunião da Assembleia da Escola, o Alberto apresentou uma “comunicação”. Tinha feito uma pesquisa sobre a guerra do Vietname e sobre a guerra do Iraque. No seu portfólio, havia várias evidências de aprendizagem: alguns papéis, um cd rom e uma reprodução tridimensional. O relatório de pesquisa chamou a minha atenção. Nesse documento, o Alberto registou dificuldades e aprendizagens. Uma delas foi descrita deste modo:

“Quando fui à Internet, para estudar a guerra no Iraque, percebi que quase tudo estava escrito em inglês. E que eu ainda não sabia ler e falar inglês. Pedi ajuda ao meu grupo. Fiz o planejamento com a professora Paulinha. Ela ensinou-me adjetivos em inglês. Aprendi, por exemplo, que o adjetivo “bad” (que quer dizer “mau”) pode ser escrito com um b de Bin Laden, mas também com um b de... Bush”.

Aos sete anos de idade de “maioridade” cidadã, o Alberto aprendeu a ler em inglês. O seu roteiro de estudo conduziu a pesquisa. Recolhida a informação, sobre ela refletiu criticamente e produziu conhecimento. Compreendeu que, numa guerra, não há inocentes. São todos igualmente culpados. Tanto o Bin Laden, quanto o Bush... Tanto o Putin, quanto o Trump.

Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...