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Braga, 31 de março de 2045

Netos queridos, o prometido é devido: aqui vos deixo a resposta à interrogação formulada pelo maior responsável pelos destinos da formação contínua de professores dos idos de vinte e cinco: “Formação contínua de professores: Para quê?”.

Em 1992 e se a memória não me falha, ambos cursávamos um mestrado. A minha dissertação tinha por referência duas décadas de formação em círculo de estudos, demonstrando que a formação poderia servir para nada, se não questionasse o modelo educacional instrucionista.
A faculdade de ciências de educação e as escolas de formação, que deveriam ser espaços e tempo de produção de conhecimento, eram inovadoras em teoria e conservadoras na prática. Trinta anos após a publicação do Decreto-Lei nº 249/92, um discurso sofisticado não disfarçava a miséria das práticas.
Enquanto formadores freirianos não-praticantes idolatravam Freire, Bourdieu era traído em salas de aula reprodutoras de uma pedagogia fóssil. E teoricistas, que jamais tinham alfabetizado, promoviam cursos de extensão sobre… alfabetização.
Em salas de aula, em inativos cursos de “metodologias ativas” e onde se falava de interacionismo, o instrucionismo reinava. Doutores escolanovistas, que prelecionavam sobre autonomia do aluno e protagonismo do sujeito de aprendizagem, tratavam os formandos como objetos de formação. Peagadeuses, que nunca haviam posto os pés no chão de uma escola de ensino básico (de)formavam candidatos a professores de ensino básico.
O curso (por vezes, disfarçado de círculo de estudos) era modalidade hegemónica nos cardápios de (de)formação. Palestrantes ilustres continuavam prelecionando sobre “centrar o processo de aprendizagem no aluno”, palestrando “centrado no professor”. Em pleno século XXI, o obsoleto modelo educacional do século XIX se reproduzia, e a formação de professores se constituíra em obstáculo à mudança e inovação.
Faço minhas as palavras de uma poeta-pedagoga, que, há um século, isto escrevera:
“Não vou deixar a porta entreaberta. Vou escancará-la ou fechá-la de vez. Porque pelos vãos, brechas e fendas... passam semiventos, meias-verdade e muita insensatez.”
Há cem anos, a corajosa Cecília denunciava a pobreza das práticas formativas:
“Que lhes valeu todo o curso que fizeram durante longos anos? Em vão leram livros copiosos, beberam a caudalosa erudição dos catedráticos imponentes, fizeram provas escritas de inúmeras laudas, com letra miúda. Palavras, palavras, palavras que o vento levou... As aulas de psicologia ficaram geladas nos livros; as de pedagogia fecharam-se nas caixas de jogos; as outras não levaram em si nenhum gérmen dessas duas, que são, no entanto, as indispensáveis a quem vai ser professor.
Pobres alunas que não tiveram quem as orientasse a tempo! Depois de tanto trabalho, terão de fazer por si mesmas, e com enorme esforço, aguilhoadas pela pressa de quem já está no quadro do magistério, toda a cultura técnica que ninguém pensou ou lhes pode fornecer no momento devido.”
Bauman falara de uma estranha cegueira moral, de uma cegueira ética, a cegueira daqueles que veem. E Saramago, metaforicamente, referia-se a uma cegueira social, quando apelava ao dever moral dos que enxergavam – Não vou “deixar a porta entreaberta!
Dos professores formados em ciências da educação se esperaria que formassem cidadãos críticos, seres humanos autónomos, e denunciassem um genocídio educacional impune. Mas, a sua incoerência e o seu silêncio cúmplice   contribuíam para o reforçar,
A sua conivência com um sistema obsceno era obscena.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...