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Cabo Frio, 29 de março de 2045

Na Psicologia e na Sociologia da Educação, estudei dois conceitos, que ajudam a compreender por que razão as escolas dos idos de vinte e cinco eram cenário de violência física e simbólica: a “cultura de escola” e o “clima de escola”.

Antropologicamente, cultura pode ser compreendida como sistema comum de significados, do qual fazem parte conteúdos implícitos e explícitos reproduzidos, através de gerações, por membros de um mesmo grupo social. Ipso facto, poderemos definir “cultura de escola” como uma rede de significados compartilhados pelo conjunto de atores sociais que participam e interagem na construção do cotidiano da escola.
As escolas, apesar de integradas em contextos sociais mais amplos, desenvolvem uma cultura específica, que ultrapassa a racionalidade técnica e que tem na escola a sua origem.
A capacidade de uma escola produzir a sua própria cultura deriva decorre da capacidade elaborar uma dinâmica interna, a partir dos discursos, formas de comunicação e linguagens presentes no cotidiano escolar. António Nóvoa nos dizia que as escolas se constituam numa territorialidade espacial, mas, também, cultural, traduzida nas dimensões da vida escolar: políticas, pessoais e simbólicas. A escola não é mera reprodutora de conhecimentos externos e deveria ser capaz de operar transformações culturais, interpelando práticas normóticas.
Segundo o Gepem, o “clima de escola” é a sua “atmosfera psicossocial”, que “influencia a dinâmica escolar e é influenciado por ela, e que interfere na qualidade de vida e na qualidade do processo de ensino e aprendizagem”.
Tive o privilégio de, por décadas, trabalhar numa escola onde cada professor era, individualmente, responsável pelo seu coletivo. Onde os conflitos eram prevenidos ou resolvidos com escuta atenta, firmeza e amorosidade.
Não eram esse o tipo de relação social patente na escola do seriado “Adolescência”.
Um dos policiais tenta conversar com um professor:
“Eu vi os seus boletins escolares. O Jamie era bom aluno. Eu quero saber se havia alguns sinais de infelicidade.”
Resposta do professor:
“Eu sou só um instrutor”.
O policial replica:
“Bom, o senhor é um professor.”
“Eu ensino história. Eu… eu não vejo ele. Entende? E, olhe, essas crianças são impossíveis. O que quer que eu diga?”
Os professores se assumiam como “instrutores”. E a solidão sentida pelos professores numa sala de aula instrucionista era da mesma natureza da solidão dos seus alunos.
Enquanto tenta apagar um contínuo burburinho, a Diretora diz “ter dado aula para Katie no quinto ano” – “Ela era uma menina inteligente. Falava um pouco demais, mas… eu juro que pensei que ela fosse ser alguém na vida”.
”É o mais completo caos!”
“O teatro já acabou. Podem voltar para as suas salas. Não tem mais briga aqui, não! Direto para as suas salas!”
Ouve-se uma canção: “Você tá no Tik Tok, odiando adolescentes”. E a Diretora reage:
“Guarde esse celular e volte pra sala! Agora!”
Perto, um aluno murmura:
“Cala a boca aí!”
“O que… que você disse? – pergunta a Diretora – “Ninguém merece… Eu mandei continuar, por favor. Subam as escadas. Vamos para a aula! Pessoal, continuem andando. Por favor, voltem para a aula. Bora, bora, bora! Direto pra aula!
Das salas de aula saem murmúrios:
“Que aula chata… que matéria esquisita.”
Nem assim, perante tanto desrespeito e violência física e simbólica, a Administração Educacional modificava o seu modus operandi. Sempre que soava o alerta de mudança numa escola, logo a Administração lhe colocava empecilhos burocráticos – e o projeto “morria na praia”.

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