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Itaipuaçu, 27 de março de 2045

No mês de março de há vinte anos, a minissérie Adolescência nos interpelou com uma abordagem sensível e realista sobre questões sociais. Na Internet, não faltaram comentários:

“É uma peça artística, que soa como um grito de alerta. Me deixou completamente em êxtase. Surreal!”
“Sempre houve crimes, mesmo antes das redes sociais. O que podemos refletir é que, hoje, os pais não têm tempo para os filhos e a escola é só uma forma de passar conteúdo e tirar $$$ dos pais. É uma bola de neve. E o mais terrível é que ele não fala sobre a menina morta, sua preocupação é com o menino, que exacerbou seu machismo com as redes sociais. Preocupante esse olhar!”
“Uma série maravilhosa, emocionante, impactante. A última cena deste pai é estarrecedora, corta o coração de qualquer pai e mãe que esteja assistindo. Vale muito a pena assistir, para termos a noção aonde as redes sociais levam uma criança a ceifar vidas.”
“Capitães de Areia” trata sobre isso tudo numa perspetiva brasileira, ainda mais poética e vibrante.”
Quando contava dezassete anos, li essa obra do Jorge Amado. A leitura desse livro reforçou a minha decisão de abandonar uma carreira de engenheiro e me dedicar a cuidar de crianças, jovens e suas famílias – a ser professor.
Pouco antes do aparecimento da série, a Internet informava mais um tiroteio ocorrido numa escola de ensino médio da Florida. O décimo oitavo tiroteio daquele ano, nos Estados Unidos, causara 17 mortos.
Quem se dispusesse a analisar o quarto episódio da série, compreenderia que décadas de uma educação familiar feita de solidão e abandono era origem remota de tamanha violência. Quem assistisse ao segundo episódio, compreenderia que a violência simbólica da Escola Prussiana e a obsolescência do modelo educacional herdado da Primeira Revolução Industrial haviam provocado um verdadeiro genocídio educacional.
A Família os gerava, uma Sociedade doente os contaminava e a Escola os condenava a trágicos destinos.
Reparai, queridos netos, em situações e frases colhidas no segundo dos episódios da série “Adolescência”. Elas compõem quase uma radiografia de uma Escola semeada de ameaças e perigos que, infelizmente, ainda tínhamos, nos idos de vinte e cinco. Assemelha-se a uma “descida aos infernos”, como ireis ver.
Dois policiais foram à escola do jovem suspeito de assassinato. Procuravam respostas e a arma do crime. Na cena inicial, o portão da escola range, se abre, e a diretora os recebe, dizendo:
“Eles acabaram de entrar nas salas, então talvez estejam um pouco agitados”.
A cena seguinte regista uma situação de bullying. Um jovem passa junto a uma mesa onde outro jovem acabou de almoçar, e atira-lhe restos de comida e outros lixos, exclamando: “Babaca!”
Outro jovem interpela a vítima de bullying: “Me dá 1,20. Agora!”
Um funcionário passa por perto e se limita a dizer: “Deixa ele em paz!”
Dois professores passam alheios à situação, conversando:
“Catorze país me perguntaram: “A sua escola é segura?”
“Meu Deus! O que respondeu?”
“Eu disse que o incidente nem tinha acontecido na área da escola”. Daí, eles falaram em segurança, em detetores de metal…”
“Miss Taylor disse que temos que ter uma sala de apoio ao luto. Agora viramos seguranças e assistentes sociais? Que ótimo!”
“Só me preocupo com o impacto que vai causar nas crianças. Foi violento. Fica de olho em tudo! Tá?”
Amanhã, vos contarei algo mais desse mergulho numa “escola prussiana”. Por agora, apenas direi que, nesse tempo e marginalmente a esse cortejo de horrores, professores e outras gentes de boa-vontade se uniram para a humanizar.

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Cabuçu, 23 de julho de 2044

Longe vai o tempo em que fui aprender como avaliar por portfólio. Decorria a década de noventa e eu lá ia, em longa jornada e a expensas próprias, até ao lugar onde o amigo Domingos Fernandes – que viria a ser Presidente do Conselho Nacional de Educação, em vinte e dois – partilhava a sua tese de doutoramento.  Nos fins de semana, ia até Lisboa, trabalhar com o Paulo Abrantes, que se apaixonara pela “aprendizagem por competências”, e ao Instituto de Inovação Educacional. Por trinta anos, utilizei um livrinho concebido no I.I.E., de onde constava a imagem que encima esta cartinha. Chegados aos anos vinte deste século, o portfólio já era digital, mas a avaliação permanecia tão anacrónica como décadas atrás, o que me fez recordar um textinho por mim publicado em finais dos anos noventa e que rezava assim:  “Na binária e pacata rotina aula-teste instalara-se perturbação. Os pais dos alunos perguntavam se os exames da quarta classe tinham regressado. E já toda a gente procurava no ...