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Porto Velho, 30 de março de 2045

Nos idos de setenta, coordenei uma equipe de formadores, na iniciativa ministerial de introdução de novos programas para o “ensino primário”. Mais por intuição do que por referência a um quadro teórico, fizemos do primeiro momento um encontro de escuta – e os professores se queixaram do preço dos livros.

Num fim-de-tarde, procedemos a um levantamento de recursos, tendo encontrado uma “Biblioteca Pedagógica” escondida num anexo da Delegação Escolar. Jamais havia sido utilizada pelos professores. Retirado o pó, inventariados os livros, estes passaram a circular pelas escolas. O ritmo de requisições era intenso.
Em novembro de 1978, era publicado o primeiro número do "Projeto", boletim do recém-criado “Centro de Documentação Pedagógica”. O texto de abertura tinha um título sugestivo: "O que foi e será a formação continuada dos professores".
Os boletins seguintes davam notícias de inúmeros projetos, encontros, exposições, estudos. Inusitadamente, a Biblioteca Pedagógica já não conseguia satisfazer todos os pedidos de livros que nos chegavam.
Entretanto, sem um enquadramento jurídico que salvaguardasse as estruturas criadas, a administração educacional tudo fez para destruir algo que pressentiam fugir ao seu controlo. A equipe em que me integrava resistiu até onde pôde. Depois, pediu demissão. A Biblioteca foi conferida, fechada, e voltou para a arrecadação de onde viera.
Volvida uma década, era criado o "Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo". A equipa eleita pelos professores da região voltava a integrar alguns dos que, no hiato entre as duas iniciativas do ministério, haviam resistido à degradação pedagógica das escolas.
Coube-me, de novo, o papel de coordenar o programa. Fui encontrar a Biblioteca Pedagógica tal qual a havia deixado. Retirado o pó, verificámos que apenas faltavam os dicionários. E não havia qualquer registo de requisição no decurso de uma década.
Precisamos de algum tempo para recuperar dessa ingrata surpresa e voltar a acreditar. Concluído mais um programa de formação, voltei a ser apenas o professor de chão de escola, que sempre fui. Mas, dessa feita, a Biblioteca Pedagógica não voltou para os cafundós dos anexos da secretaria. Ao cabo de muitos meses de conflito com a burocracia, a recém-criada Associação PROF, constituída por professores que haviam sobrevivido aos maus-tratos de quase duas décadas, tomava a seu cargo a gestão da Biblioteca e, no novembro de 1992, fundava o primeiro centro de formação contínua.
Fui o primeiro diretor de centro e o primeiro consultor de formação. Na Universidade do Minho, ajudei a redigir a regulamentação do círculo de estudos e de outras modalidades. Entre 1992 e 1996, talvez tenha sido o formador mais requisitado, dado o reconhecimento da boa qualidade do projeto “Fazer a Ponte”.
Ajudei professores a criar um dos primeiros centros de formação de associações de escolas. Depois de explicar o modo de instalação e funcionamento, faltava dar-lhe um nome. Sugeri que dessem o nome de um pedagogo português. Sucedeu um silêncio confrangedor, que rompi propondo o nome de um célebre pedagogo português do século XX.
Perguntaram:
“É um colega nosso?”
“Era…” – ironizei.
Cedo suspendi a minha atividade de formador, recusando ser conivente com “uma mentira construída sobre 20 milhões de euros” (foi assim que designei a formação que, em 2025, ainda se fazia). Nesse ano, um alto responsável pelos destinos da formação questionava:
“Formação contínua de professores: Para quê?”
Dei-lhe resposta.

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