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Praia Brava da Fortaleza, 24 de março de 2045

Foi por março de há vinte anos, que encontrei o “lugar”. Fui até lá levado pelas circunstâncias da vida e pelas minhas amigas Roze e Teca.

A Roze recuperava de perseguições sofridas e, enquanto vovó corujinha, produzia belos nacos de literatura para a infância… e não só – uma dúzia de anos antes, com o amigo Arnaldo e uma multidão de educadores éticos, havíamos traçado as coordenadas de um projeto, que a corrupção moral logrou extinguir. E estávamos de regresso às lides da Mudança.
A amiga Teca dizia que, ainda que aposentada, os seus sonhos jamais se aposentariam – sonhos de Humanização, que a Teca nunca deixara de alimentar. Portanto, eu não poderia estar em melhor companhia do que na companhia de quem me ensinava Humanidade.
O “lugar” de que que vos falo era a Fortaleza de Ubatuba, uma comunidade caiçara como qualquer outra e diferente de todas as outras, que eu tive ensejo de conhecer – já havia passado pelo Pouso do Cajaíba, pela Praia do Sono, por outras paragens de gente boa, mas nunca encontrara esse “lugar”.
Ali se respirava gratidão no acolhimento e verdade no trato. Ali nos esperava a generosidade do Guilherme e da Ana. Ali, era evidente a preocupação com a preservação de uma cultura e do ambiente, expressa pelo Donizetti e pela Daiana a bordo de uma canoa centenária. Ali, vigorava a gentileza do Artur e do David, a ternura criativa das crianças – para meter conversa, perguntei ao Pedro (de oito anos de idade) se era flamenguista.
“Não! Eu sou brasileiro” - respondeu.
Tudo isso me foi dado conhecer pela azáfama de uma extraordinária coordenadora das escolas – a Jessika, um ser humano fora do comum, uma educadora mais do que amorosa. Pois, já na Grécia de há milhares de anos havia quem acreditasse serem os seres humanos capazes de buscarem – em si próprios e entre os outros seres – a perfeição possível.  A Jessika era a bondade em pessoa e a tradução fiel da solidária palavra “amigo”, que Saint-Exupéry aclarou:
“A pedra não tem esperança de ser outra coisa que não pedra. Mas, ao colaborar, ela congrega-se e torna-se templo".
Isso mesmo: a Jessika tinha o condão de congregar. E me fez acreditar na possibilidade de aquele ser um “lugar” de concretização de uma educação de boa qualidade ao alcance de todos e em comunidade. Naquele “lugar”, à extrema delicadeza da relação humana se juntava a mansidão do mar de uma baía onde o sol entrava timidamente, pela manhã, e se retirava com saudade do futuro, pelo fim de tardes cálidas. Tudo naquele “lugar” me fez apurar o olhar, um olhar que não se encontra nos olhos, mas que passa por outros sentidos. Como diria a Cecília:
“O sentido está guardado no rosto com que te miro”.
Ou, como escreveu o amigo Rubem (em “Gaiolas ou Asas”):
Eu não te miro com os meus olhos. Eu te miro com o meu rosto. O rosto com que te miro guarda um segredo. Não miro com os olhos. Miro com o rosto. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar.
Se Roland tivesse de resumir o que pensava sobre educação numa única frase, ele diria: “No princípio é o olhar…”. A educação acontece na subtil trama entre os olhares da mãe e do filho. Pois é aí que se revela o desejo.
Vejam esta deliciosa descrição da mãe ensinando o filhinho a andar:
Quando a criança aprende a andar, a mãe não discorre, nem demonstra: ela não ensina a andar, ela não representa (não anda diante da criança): ela sustenta, encoraja, chama (recua e chama): ela incita e cerca: a criança pede a mãe e a mãe deseja o andar da criança.”

Tudo isso (e muito mais) eu encontrei nos olhares daquele “lugar”. E prometi voltar.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...