Eis-nos, aqui, setenta e um anos após uma leda madrugada, perguntando por que razão havia quem não comemorasse o dia do fim da ditadura.Creio ter encontrado um início de resposta durante uma viagem a Portugal.
Num encontro com educadores, pedi que não lessem o meu curriculum vitae – era coisa do passado, e de pouca ou nenhuma valia – e que me apresentassem como um designer educacional e um aprendiz de utopias.
Netos queridos, estou a “ver-vos” perguntar: a que se deve esse pedido? Vos direi.
Recordo a abertura da Semana da Educação de1998, quando a Escola da Ponte recebeu a visita do Presidente da República.
No final do dia, ele apontou como preocupação maior o fato de nem todas as crianças terem acesso a um ensino básico de qualidade.
“A escola e a família são fundamentais para desenvolver a capacidade de intervenção e de influenciar o nosso tempo.
Há também responsabilidades sociais, por parte de toda a comunidade. Os problemas da escola resolvem-se dentro e fora dela.”
Jorge Sampaio fez apelo à participação responsável e à mudança:
“É preciso recusar tendências autoritaristas e saudosistas.”
O Presidente estava atento a uma proposta de alteração da Lei de Bases, à imposição do regresso da figura do diretor, anulando práticas de direção, gestão e administração baseadas em conselhos, não-hierarquizada, como era o caso da Ponte.
Temendo o impacto de tal medida na Ponte como em outros projetos de mudança, comentou
“Não quero um País complacente com um destino escolar medíocre”.
A visita à escola terminou na reunião da Assembleia. O Presidente e a esposa intervieram, para realçar o comportamento exemplar dos alunos, o elevado sentido do exercício democrático.
Nessa noite, a televisão mostrava o final da reunião da Assembleia da Escola. Visivelmente emocionado, Jorge Sampaio despediu-se, dizendo:
“Recebi de vós lições de cidadania. E peço-vos que nunca deixeis de erguer o braço, para pedir a palavra!”
Jorge Sampaio era um presidente que considerava que a cidadania "não se esgotava na escola", mas que tinha aí "elementos essenciais de consolidação". Comovido com a manifestação de cidadania dos alunos da Ponte, com a voz embargada, confidenciou:
"Um dia, aos oito anos, a professora disse-me que era eu que ia fazer o discurso semanal. Esse discurso foi comentado e criticado. Só mais tarde, percebi o quanto esta experiência de intervenção foi útil para o resto da minha vida”.
Mais de meio século decorrido sobre a “Revolução do Cravos”, o povo português ainda não havia tomado consciência de que ninguém adormecera “fascista” no dia 24 de abril, nem acordara “democrata” no dia seguinte.
Havia “ovos de serpentes” incubados nas instituições. Através das finas membranas, já era possível discernir o réptil já perfeito – o autoritarismo da hierarquia ministerial.
O exercício de cidadania nas escolas regrediu, quando um decreto foi publicado e novos modos de regulação e controle foram instituídos. Quando o ministério da educação, unilateralmente e à revelia do disposto no contrato de autonomia celebrado em 2004, retirou à Ponte direitos adquiridos.
Quando, nos idos de noventa, o Presidente nos visitou, continuavam sólidas as minhas convicções. Estava próximo meio século de vida vivida, tempo de confucianamente nos livramos de dúvidas e entendermos a mensagem do “Decreto do Céu”. Ao passar de setenta voltas em redor do Sol, eu “seguia o meu coração, sem passar dos limites”.
Nestas puras manhãs de 2045, a Vida me ensina a ser designer de um ser humano futuro-presente, que se revê num aprendiz de utopias.
