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Loulé, 26 de abril de 2045

Após uma breve pausa na correria habitual, o reencontro com filho e netos, breve pausa no frenesim pedagógico, para mitigar saudades. Para trás ficavam as comemorações da Revolução dos Cravos. No dia seguinte, viagem para Grândola, a “terra morena” do Zeca Afonso, num evento que o amigo João preparara com esmero.

Numa manhã de um domingo primaveril, a Ana e o Gilberto nos apresentaram famílias e professores preocupados com o futuro escolar dos seus filhos e alunos. Nesse fim-de-semana de vinte e cinco, dei- lhes conta de radicais decisões, anunciei=lhes o nascimento de uma nova construção social de aprendizagem.
Quase 50 anos eram passados sobre a publicação do livro “A hecatombe escolar” do Georges Bastin. O prefácio assim rezava:
"Este livro destina-se a pais ansiosos com as dificuldades que os seus filhos sentem, aos educadores que procuram uma explicação para a mediocridade dos seus alunos e para as suas próprias desilusões e a todos aqueles que se inquietam com as hecatombes escolares e que se interrogam acerca do futuro da juventude e da rentabilidade do sistema escolar”.
O autor analisava os diferentes fatores de sucesso e insucesso atribuíveis à organização dos estudos. Constatando o enorme desperdício de esforços e de meios que representa para a sociedade a taxa crescente de inadaptações e de insucessos, o autor concluia pela necessidade urgente de uma tomada de consciência mais objetiva dos elementos de inadaptação, de uma colaboração mais estreita entre pais e pedagogos, de uma união dos esforços de todos os especialistas (médicos, psicólogos, sociólogos) em ordem a uma visão pluralista dos casos reputados “difíceis."
Entretanto, Mounier dissertara sobre a personalização do ensino e Dottrens sobre ensino individualizado, enquanto Bordieu, Passeron e Giroux denunciavam a escola reprodutora de um modelo escolar e social iníquo.
Escolas particulares tinham assimilado na exterioridade a proposta escolanovista, mantendo o status quo enfeitado de materiais Montessori, com hortinhas, aulas de meditação e arremedos digitais.
A rede pública nem isso assumia fazer. Os professores permaneciam distraídos, na solidão das salas de aula, reproduzindo um modelo de ensinagem hierárquico, autoritário, excludente, amoral e intelectualmente corrupto. Os psiquiatras acolhiam professores enfermos. Centros de “explicações” surgiam como cogumelos. Palestrantes davam notícia de pseudo-inovações. E, sob o manto diáfano de um agressivo marketing, recorrendo à mistificação, a administração tentava disfarçar a sua incapacidade de recriar a escola.
A hecatombe educacional era um desastre “naturalizado”, não era um fenómeno natural. Diferentes foram os destinos daqueles que procuravam resguardar os seus filhos dos malefícios de um velho sistema de ensinagem. A Tânia e o Nuno cuidaram de criar um começo de comunidade adequado à educação da Violeta e do Vicente. Mas, o mesmo a Sandra não conseguiu. Os seus filhos fizeram-na mudar de cidade, em busca de uma escola que deles devidamente cuidasse. Perdida a fé nas escolas ditas “públicas”, optou pela matrícula num colégio privado. Nada decorreu como esperava, pois a filha integrava o rol de crianças com dislexia.
“Senti-me muito perdida."
Socorreu-se de terapeutas, psicólogos e de “explicações”, até colocar os filhos em “ensino doméstico”. Acabou coproprietária de um... “Centro de Explicações”.
Como sair desse atoleiro pedagógico?
É o que eu tentarei “explicar” em didáticas cartinhas, a publicar durante esta semana.

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Ipê, 23 de outubro de 2043

Pela grande amizade que nutria por um bom amigo, eu hesitava entre agir como “Advogado do Diabo” (a Vovó Ludi não permitia que o fosse), ou ser o Grilinho do Pinóquio. Fosse como fosse, não me omitia, não me quedava neutral face ao teor daquilo que suscitou um “Uau!” desse amigo: “A professora de Chase está à procura de crianças solitárias. Ela está à procura de crianças que têm dificuldades para se conectar com outras crianças. Ela está a identificar os pequenos que estão a cair nas fendas da vida social da turma. Ela está descobrindo que dons estão passando despercebidos pelos seus pares. E ela está a identificar quem está a sofrer bullying e quem está a fazer o bullying.” Cadê a novidade? Porquê um “Uau!”, se todas as escolas deveriam ser espaços produtores de culturas singulares, mas também espaços de múltiplas interações, cooperação, partilha, comunicação, algo impossível em sala de aula.  Nos idos de vinte as escolas eram, quase sempre, espaços de solidão. E a solidão dos pro...