O Rubem interpelava a pertinência de um modelo educacional fóssil, que a Ponte tinha extinguido, há muitos anos, a par de outras oportunas extinções. Havia passado muito tempo tentando dar início a uma reflexão partilhada sobre novas construções sociais. Porém, o academicismo se manifestava como poderoso obstáculo.Nos idos de vinte, gente que, até então, eu tinha por referência no domínio das ciências da educação, gente que eu estimava e admirava mostrou-se relutante e até agressiva, quando, seguindo o exemplo do amigo Rubem, eu insistia no convite para um debate fraterno sobre a necessidade de mudança.
Por que reagiram desse modo? Talvez porque se sentissem incomodados pelo exemplo dado por uma escola, que, buscando coerência, banira o trabalho em sala de aula – os teóricos inspiradores dessa mudança praticavam “educação bancária”, eram teoricistas, freirianos não-praticantes.
Porquê? – eu me habituara a perguntar – dirigindo fraternas interpelações a companheiros das ciências da educação, pedindo que dessem respostas fundamentadas. Não as dirigia a doutores em educação feitos à pressa.
Naquele tempo, havia doutoramentos a granel, instituições que agiam como supermercados de diplomas. Qualquer licenciado em Teologia, Marketing, Direito, Contabilidade, Física, Engenharia, Economia… se intitulava “Doutor em Educação”. O dito popular de outros séculos “foge cão, que te fazem barão” poderia ser substituído por “foge professor, que te fazem doutor”.
Eu dirigia perguntas consideradas “impertinentes” a quem eu presumia que soubessem dar respostas fundamentadas nas ciências da educação e no bom senso, e que jamais respondessem “eu acho”, porque o achismo não saberia fundamentar a resposta a perguntas deste tipo:
Porque incitam os professores a considerar os alunos como “autónomos, protagonistas, sujeitos de aprendizagem” e continuam em sala de aula?
O Piaget bem dizia que a única área das ciências humanas em que todo mundo se achava no direito de dar palpite era a Educação. Afetados pelo teoricismo, muitos danos esses “doutores” provocaram. Vos deixo com um esboço do seu perfil. Fá-lo-ei com recurso à metáfora da brasileiríssima “rapadura”:
Para quem não tinha estudos, rapadura era um doce.
Para aqueles que concluíam o ensino fundamental, “rapadura” era açúcar mascavo em tijolinhos.
Quando se atingia o final do ensino médio (só metade o atingia), era açúcar não refinado, que não mudava de forma quando pressionado.
Quando se fazia graduação, “rapadura” apresentava-se em blocos sólidos e tinha sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas.
Num mestrado, “rapadura” era sacarose extraída da cana do açúcar, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, que não alterava dimensões lineares, quando submetida a uma tensão axial em consequência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.
Para os doutores, “rapadura” era o dissacarídeo de fórmula C12H22011, obtido através da fervura e evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officcinarum (Linneu, 1758). Esse dissacarídeo impressionava, favoravelmente, as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorria num líquido nutritivo de alta viscosidade, produzido nos órgãos especiais existentes na Apis melífera.
Resta acrescentar que os analfabetos e sem curso sabiam fazer rapadura. E que nunca encontrei um PhD que soubesse.
Por que reagiram desse modo? Talvez porque se sentissem incomodados pelo exemplo dado por uma escola, que, buscando coerência, banira o trabalho em sala de aula – os teóricos inspiradores dessa mudança praticavam “educação bancária”, eram teoricistas, freirianos não-praticantes.
Porquê? – eu me habituara a perguntar – dirigindo fraternas interpelações a companheiros das ciências da educação, pedindo que dessem respostas fundamentadas. Não as dirigia a doutores em educação feitos à pressa.
Naquele tempo, havia doutoramentos a granel, instituições que agiam como supermercados de diplomas. Qualquer licenciado em Teologia, Marketing, Direito, Contabilidade, Física, Engenharia, Economia… se intitulava “Doutor em Educação”. O dito popular de outros séculos “foge cão, que te fazem barão” poderia ser substituído por “foge professor, que te fazem doutor”.
Eu dirigia perguntas consideradas “impertinentes” a quem eu presumia que soubessem dar respostas fundamentadas nas ciências da educação e no bom senso, e que jamais respondessem “eu acho”, porque o achismo não saberia fundamentar a resposta a perguntas deste tipo:
Porque incitam os professores a considerar os alunos como “autónomos, protagonistas, sujeitos de aprendizagem” e continuam em sala de aula?
O Piaget bem dizia que a única área das ciências humanas em que todo mundo se achava no direito de dar palpite era a Educação. Afetados pelo teoricismo, muitos danos esses “doutores” provocaram. Vos deixo com um esboço do seu perfil. Fá-lo-ei com recurso à metáfora da brasileiríssima “rapadura”:
Para quem não tinha estudos, rapadura era um doce.
Para aqueles que concluíam o ensino fundamental, “rapadura” era açúcar mascavo em tijolinhos.
Quando se atingia o final do ensino médio (só metade o atingia), era açúcar não refinado, que não mudava de forma quando pressionado.
Quando se fazia graduação, “rapadura” apresentava-se em blocos sólidos e tinha sabor deleitável da secreção alimentar das abelhas.
Num mestrado, “rapadura” era sacarose extraída da cana do açúcar, apresentando-se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, que não alterava dimensões lineares, quando submetida a uma tensão axial em consequência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.
Para os doutores, “rapadura” era o dissacarídeo de fórmula C12H22011, obtido através da fervura e evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do caule da gramínea Saccharus officcinarum (Linneu, 1758). Esse dissacarídeo impressionava, favoravelmente, as papilas gustativas, sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo dissacarídeo em estado bruto, que ocorria num líquido nutritivo de alta viscosidade, produzido nos órgãos especiais existentes na Apis melífera.
Resta acrescentar que os analfabetos e sem curso sabiam fazer rapadura. E que nunca encontrei um PhD que soubesse.
