Em pleno “inferno astral” do completar setenta e quatro voltas em redor do Sol, o amigo João se compadeceu do meu deplorável estado de saúde e me levou a um hospital.Na inação de um leito de hospital, imerso no quotidiano de uma dependência extrema, face a face com a possibilidade de perecer, passa por nós o filme da existência ida e assomam decisões quase irreversíveis, Sem pensar em futuro. Apenas vivendo. Só isso.
Sobrou tempo para refletir e passar testemunho. Vida é serviço, mas, como no Eclesiástico, cada coisa no seu tempo. O tempo de conceber uma nova construção social de aprendizagem e de educação já não será o meu tempo.
Era chegado o tempo de alcançar o dom do desapego, em recolhimento ativo. Recriei ímpetos e novas propostas. Fiz entrega de projetos em mãos de quem os merecia. Fiquei ajudando quem de mim solicitava ajuda. Só isso.
Fraternalmente, definitivamente, convidei e convoquei para transcender uma Escola que, por séculos, fora uma invenção diabólica. Já Férrière o dissera.
Contava esse eminente pedagogo que, um dia, deu o diabo uma saltada à terra e verificou, não sem despeito, que ainda cá se encontravam homens que acreditavam no bem. O diabo concluiu que as coisas não iam bem e que se tornava necessário modificar isso. E disse consigo:
“A infância é o porvir da raça; comecemos, pois, pela infância”. Mas mudar a infância, como? Teve uma ideia luminosa: criar a escola. E, seguindo o conselho do diabo, criou-se a escola.
A criança adora a natureza: encerraram-na dentro de casas”.
Aqueles que, nas redes de comunidades, assumiram o “desencerramento” da infância” seguiram recomendações de grandes humanistas desse tempo. Do Mia Couto:
"Cada um de nós faça a sua parte, para que se dê um novo reencantamento do mundo, a começar por nosso mundo interior”.
Ou o Papa Francisco, que apelava ao “renovar a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva”:
"É necessário acelerar esse movimento inclusivo da educação para combater a cultura do descarte, criada pela rejeição da fraternidade como elemento constitutivo da humanidade”.
Esse abril foi tempo de “tensa expectativa, tempo de alguma ambiguidade, de apreensão, mas também de teimosa confiança. Nas cartinhas de 2001, o vosso avô dissera que:
“Como pombas com ramos de oliveira atravessados nos bicos, as aves aprendizes estabeleciam laços, lançavam alicerces das pontes, que levavam dentro de si, nas faldas das margens a unir. Não importava a tumultuosa torrente que ameaçava fazer ruir as frágeis fundações. Não importava que horrendas fauces assomassem nos itinerários construtores. O medo não era sentimento que se cultivasse.
Aliás, uma das gaivotas encontrou recados de despedida deixados na escola das aves. Um desses recados de pássaro aprendiz dizia:
“Hoje, sinto-me quase feliz, à beira de voar sonhos novos. Medo não sinto. E até o inesperado me fascina. É um sentimento forte e, ao mesmo tempo, leve e doce. Medo não sinto, porque não parto sozinho”.
Na Ponte do século passado, éramos o alvo preferencial de maldizentes. Mas, se não nos era possível conter a sanha destrutiva, ninguém poderia impedir a construção de verdadeiras alternativas.
As minhas cartinhas, alertando para os malefícios da escola da sala de aula, faziam mossa nas hostes conservadoras. Os irritados reagiram, desde ameaças via e-mail a fake news em redes sociais. Foi então que, de mero inofensivo objeto de turismo educacional, a Ponte se constituiu em incomodo maior para os bem-pensantes e fator de perturbação dos acomodados – sem a minha intervenção.
Eu fui viver.
Sobrou tempo para refletir e passar testemunho. Vida é serviço, mas, como no Eclesiástico, cada coisa no seu tempo. O tempo de conceber uma nova construção social de aprendizagem e de educação já não será o meu tempo.
Era chegado o tempo de alcançar o dom do desapego, em recolhimento ativo. Recriei ímpetos e novas propostas. Fiz entrega de projetos em mãos de quem os merecia. Fiquei ajudando quem de mim solicitava ajuda. Só isso.
Fraternalmente, definitivamente, convidei e convoquei para transcender uma Escola que, por séculos, fora uma invenção diabólica. Já Férrière o dissera.
Contava esse eminente pedagogo que, um dia, deu o diabo uma saltada à terra e verificou, não sem despeito, que ainda cá se encontravam homens que acreditavam no bem. O diabo concluiu que as coisas não iam bem e que se tornava necessário modificar isso. E disse consigo:
“A infância é o porvir da raça; comecemos, pois, pela infância”. Mas mudar a infância, como? Teve uma ideia luminosa: criar a escola. E, seguindo o conselho do diabo, criou-se a escola.
A criança adora a natureza: encerraram-na dentro de casas”.
Aqueles que, nas redes de comunidades, assumiram o “desencerramento” da infância” seguiram recomendações de grandes humanistas desse tempo. Do Mia Couto:
"Cada um de nós faça a sua parte, para que se dê um novo reencantamento do mundo, a começar por nosso mundo interior”.
Ou o Papa Francisco, que apelava ao “renovar a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva”:
"É necessário acelerar esse movimento inclusivo da educação para combater a cultura do descarte, criada pela rejeição da fraternidade como elemento constitutivo da humanidade”.
Esse abril foi tempo de “tensa expectativa, tempo de alguma ambiguidade, de apreensão, mas também de teimosa confiança. Nas cartinhas de 2001, o vosso avô dissera que:
“Como pombas com ramos de oliveira atravessados nos bicos, as aves aprendizes estabeleciam laços, lançavam alicerces das pontes, que levavam dentro de si, nas faldas das margens a unir. Não importava a tumultuosa torrente que ameaçava fazer ruir as frágeis fundações. Não importava que horrendas fauces assomassem nos itinerários construtores. O medo não era sentimento que se cultivasse.
Aliás, uma das gaivotas encontrou recados de despedida deixados na escola das aves. Um desses recados de pássaro aprendiz dizia:
“Hoje, sinto-me quase feliz, à beira de voar sonhos novos. Medo não sinto. E até o inesperado me fascina. É um sentimento forte e, ao mesmo tempo, leve e doce. Medo não sinto, porque não parto sozinho”.
Na Ponte do século passado, éramos o alvo preferencial de maldizentes. Mas, se não nos era possível conter a sanha destrutiva, ninguém poderia impedir a construção de verdadeiras alternativas.
As minhas cartinhas, alertando para os malefícios da escola da sala de aula, faziam mossa nas hostes conservadoras. Os irritados reagiram, desde ameaças via e-mail a fake news em redes sociais. Foi então que, de mero inofensivo objeto de turismo educacional, a Ponte se constituiu em incomodo maior para os bem-pensantes e fator de perturbação dos acomodados – sem a minha intervenção.
Eu fui viver.
