Ao longo de meio século de professor de chão de escola, raramente encontrei estudos que não partissem do pressuposto de que o tempo de aprender era o tempo passado em sala de aula. Exemplo típico desse equívoco foi a conclusão do estudo de um antropólogo, que demonstrava a necessidade de a sociedade compreender as peculiaridades da percepção e uso do tempo no ambiente escolar.
Ele dizia ser muito importante que as “aulas” de
matemática fossem administradas pela manhã. Supostamente, porque o aluno teria
maior capacidade de “absorver” o conhecimento – se afirmações desse gênero
provindas de “especialistas” não fossem graves, seriam ridículas.
Um dos pontos fortes do debate dos idos de
vinte era “o tempo de duração de uma aula”. No decurso de um congresso, alguém
perguntou se eu estava de acordo com a carga horária em vigor. Respondi que
“carga” era coisa de jegue, com o devido respeito pelo colega e pelos jegues.
O colega voltou à
carga. Perguntou-me se aprovava a alteração do tempo de aula de cinquenta para
noventa minutos. Respondi, perguntando:
“Cinquenta minutos?
Noventa minutos? Para qual aluno?”
Ficou arrumada a
questão, ainda que eu acrescentasse (e ele já não escutasse) que foi há cerca
de cem anos que alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que o “aluno
médio” teria, “em média”, uma capacidade de atenção seguida de cerca de
cinquenta minutos.
Finalizei, afirmando
que a duração da aula é uma falsa questão, que teríamos de ultrapassar um
discurso semeado de abstrações: “aluno médio, carga horária, ano letivo,
trimestre, bimestre... semestre”.
A
duração da aula decretada variou ao longo do tempo. Em 1986, a Lei de Bases instituiu
um mínimo obrigatório de 200 dias letivos anuais, derrubando os 180 dias
letivos anteriores, “para que os alunos dispusessem de mais tempo para
aprender” (sic). Mas, qual era o tempo de aprender? Um tempo decretado, ou
ajustado a cada qual, alinhado com uma efetiva produção de conhecimento?
Por
que se padronizava o tempo de ensinar, sem deixar tempo para aprender? Onde estaria
a capacidade de reinventar a gestão do tempo, no respeito pelo ritmo e
necessidades concretas de cada ser humano?
Naquele tempo, a escola do tempo
da sala de aula produzia e reproduzia insucesso, porque as pessoas produziam organizações
e por elas eram reproduzidas. Nunca alguém me conseguiu explicar por que razão
havia ano letivo, ou porque as escolas fechavam para férias. Os hospitais e as
igrejas também fechariam para férias?
Imaginai o vosso filho com uma
crise de apendicite aguda. Chegados ao hospital, depararíeis com este aviso:
“Estamos de férias. Deixe a sua
inscrição no atendente e volte dentro de um mês”.
É evidente que o apêndice se
romperia e o vosso filho morreria.
Imaginai outro, afixado na porta
de uma igreja: “Volte em fevereiro, porque o pastor, o padre, Deus e os santos
estão de férias”.
Alguém imaginaria contemplar
dísticos deste tipo? Só na Escola, que não sabia que a aprendizagem acontecia
nos 365 dias e 6 horas de cada ano e nas 24 horas de cada dia.
À
revelia das descobertas da cronobiologia, as escolas mantinham rituais de
horário fixo – hora de entrar e de sair, cinquenta minutos de uma aula, que
ninguém sabia explicar por que eram cinquenta. Ao mesmo tempo, todos deveriam
estar olhando a nuca do colega da frente - e, entre dois toques de sirene, se
anunciava o recreio.
Eu
suspeitava de que existia alguma analogia entre o banho de sol dos presidiários
e o recreio dos alunos, pois todos deveriam merendar, fazer xixi e defecar ao
mesmo tempo, e vigiados.
Lede
o Foucault...
