Alice querida, pelos teus dois anos de idade, te lançaste na senda das descobertas do linguarejar. E eu, avô babado não me cansava de te espevitar. Espantava-me e divertia-me com as tuas generalizações. Encorajava-te, incitando-te ao diálogo, desafiava a tua criatividade com socráticas subtilezas:
“A
Alice é a netinha do vovô? Sabes quem é a netinha do vovô?”
“Sabo!”
Talvez por te reveres
num outro lado de um freudiano espelho – eu sei lá! – o certo é que tu me
retorquias numa lógica implacável e zurzidora de ortodoxias gramaticais.
“O que
é isto?” – te perguntava, apontando as mãozinhas do Marcos.
“Ito é
a mões do minino!”
Compassivamente
e incondicionalmente te escutando, identifiquei lógicas, criativas
generalizações, aprendi a gramática do bom senso. E reaprendi com os teus sábios
arabescos linguísticos muito daquilo que eu tive de desaprender quando, um dia,
quis ser professor. Acudiram à memória episódios, que ouvi contar, quando ainda
exercia a profissão.
Parece que foi
ontem e já lá vão tantos anos! Era no tempo do hegemónico método fónico, em que
o “p” e o “t” eram aprendidos através da repetição soletrada de frases de alto
gabarito intelectual, do género: “a tia tapa o pote”, “a tia é tua”, “é a tua
pua” – os professores não sabiam o que era uma pua, mas estava escrito no livro
de leitura.
Nesse tempo,
algum pai em seu perfeito juízo se lembraria de repreender o filho, quando este
balbuciasse a primeira palavra? Estou a ver o pequeno a exclamar “papai!” e o
zeloso progenitor a corrigi-lo, de imediato:
“Não
se diz papai! Diz comigo: “um pê e um a… pa; mais um pê e um ai”. E, agora, diz
tudo junto: “papai”. Assim é que está bem!”
Queridos
netos, podereis considerar ridícula tal descrição, mas era assim que se
aprendia a ler – ou não se aprendia – nas escolas daquele tempo. Tudo passava
pela soletração, apesar de alguns episódios terem propiciado suficientes
pretextos para interpelar absurdos e efetivar revisões metodológicas.
Recordemos o protagonizado por uma professora que, pretendendo ensinar o
ditongo nasal “ão” e o seu plural “ões”, exibiu uma gravura, a apontou e disse
para a turma:
“Ora
vamos lá! Quero todo mundo a ler esta palavra!”
E toda a
turma, num coro estridente, soletrou:
“Por…co!!!”
“Não é
porco! É leitão!” – gritou a mestra – “Vá lá, menina! Ora lê!”
A aluna fitou
demoradamente o desenho. Depois, voltou o olhar para a impaciente mestra.
“Estás
espera de quê? Levanta-te e lê!”
A pequena
levantou-se, mas deitou os olhos ao chão.
“Ó
minha grandessíssima burra! Tu não sabes que estamos a dar o “l”? Vê-se logo
que não estudaste a lição em casa!”
Abra-se um
justo parêntesis para referir que, no século passado, expressões como “ó minha
burra”, eram ternamente utilizadas por alguns professores, como recurso
pedagógico, à míngua de conhecimento de elementares conceitos como o de
“reforço positivo”, que tinham ficado confinados aos testes de Psicologia da
Educação parcimoniosamente copiados e esquecidos.
Testes, provas
e outros instrumentos de duvidosa eficácia eram coisas de um passado remoto da
formação de professores. Outro instrumento instrucionista era o chamado “plano
da aula”, inútil apetrecho usado nas escolas do século passado. No
planejamento, a professora havia destinado cinco minutos para a “motivação” e
outros cinco para a “introdução da letra lê”.
Em 2045,
compreendo que considereis inverosímil o uso desse e de outros instrumentos da
proto-história da escola. A ensinagem era fértil em absurdos. Perdoai, pois,
que dê por finda a explicação de absurdos e esta cartinha.
