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Pelotas, 21 de maio de 2045

Alice querida, pelos teus dois anos de idade, te lançaste na senda das descobertas do linguarejar. E eu, avô babado não me cansava de te espevitar. Espantava-me e divertia-me com as tuas generalizações. Encorajava-te, incitando-te ao diálogo, desafiava a tua criatividade com socráticas subtilezas:

“A Alice é a netinha do vovô? Sabes quem é a netinha do vovô?”

“Sabo!”

Talvez por te reveres num outro lado de um freudiano espelho – eu sei lá! – o certo é que tu me retorquias numa lógica implacável e zurzidora de ortodoxias gramaticais.

“O que é isto?” – te perguntava, apontando as mãozinhas do Marcos.

“Ito é a mões do minino!”

Compassivamente e incondicionalmente te escutando, identifiquei lógicas, criativas generalizações, aprendi a gramática do bom senso. E reaprendi com os teus sábios arabescos linguísticos muito daquilo que eu tive de desaprender quando, um dia, quis ser professor. Acudiram à memória episódios, que ouvi contar, quando ainda exercia a profissão.

Parece que foi ontem e já lá vão tantos anos! Era no tempo do hegemónico método fónico, em que o “p” e o “t” eram aprendidos através da repetição soletrada de frases de alto gabarito intelectual, do género: “a tia tapa o pote”, “a tia é tua”, “é a tua pua” – os professores não sabiam o que era uma pua, mas estava escrito no livro de leitura.

Nesse tempo, algum pai em seu perfeito juízo se lembraria de repreender o filho, quando este balbuciasse a primeira palavra? Estou a ver o pequeno a exclamar “papai!” e o zeloso progenitor a corrigi-lo, de imediato:

“Não se diz papai! Diz comigo: “um pê e um a… pa; mais um pê e um ai”. E, agora, diz tudo junto: “papai”. Assim é que está bem!”

Queridos netos, podereis considerar ridícula tal descrição, mas era assim que se aprendia a ler – ou não se aprendia – nas escolas daquele tempo. Tudo passava pela soletração, apesar de alguns episódios terem propiciado suficientes pretextos para interpelar absurdos e efetivar revisões metodológicas. Recordemos o protagonizado por uma professora que, pretendendo ensinar o ditongo nasal “ão” e o seu plural “ões”, exibiu uma gravura, a apontou e disse para a turma:

“Ora vamos lá! Quero todo mundo a ler esta palavra!”

E toda a turma, num coro estridente, soletrou:

“Por…co!!!”

“Não é porco! É leitão!” – gritou a mestra – “Vá lá, menina! Ora lê!”

A aluna fitou demoradamente o desenho. Depois, voltou o olhar para a impaciente mestra.

“Estás espera de quê? Levanta-te e lê!”

A pequena levantou-se, mas deitou os olhos ao chão.

“Ó minha grandessíssima burra! Tu não sabes que estamos a dar o “l”? Vê-se logo que não estudaste a lição em casa!”

Abra-se um justo parêntesis para referir que, no século passado, expressões como “ó minha burra”, eram ternamente utilizadas por alguns professores, como recurso pedagógico, à míngua de conhecimento de elementares conceitos como o de “reforço positivo”, que tinham ficado confinados aos testes de Psicologia da Educação parcimoniosamente copiados e esquecidos.

Testes, provas e outros instrumentos de duvidosa eficácia eram coisas de um passado remoto da formação de professores. Outro instrumento instrucionista era o chamado “plano da aula”, inútil apetrecho usado nas escolas do século passado. No planejamento, a professora havia destinado cinco minutos para a “motivação” e outros cinco para a “introdução da letra lê”.

Em 2045, compreendo que considereis inverosímil o uso desse e de outros instrumentos da proto-história da escola. A ensinagem era fértil em absurdos. Perdoai, pois, que dê por finda a explicação de absurdos e esta cartinha.

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