Pular para o conteúdo principal

São Borja, 24 de maio de 2045

Queridos netos,

Em 2025, eu tentava ajudar amigos e companheiros de jornada a “matar o pai” (psicanaliticamente, é claro!). havia completado setenta e quatro primaveras e apenas desejava que me libertassem do fardo da militância. Urgia que outros educadores tomassem nas suas mãos a… “missão”.

Para tal, ajudei a criar uma rede de projetos de uma nova e melhor educação. Sentia ter chegado a hora de ir plantar árvores e olhar passarinhos.

Sabemos que uma rede não tem centro e que, por isso, se expõe a inevitáveis "dinâmicas pessoais" e a manifestações de egos inflamados. Por isso, não foi fácil concretizar o meu voluntário afastamento. Tão logo anunciei esse propósito, recebi mensagens como esta:

“Como mãe e educadora do século XXI, cheguei a este momento mais certa de que as minhas crenças e visões em "chão de escola" estão corretas, dada a realidade deste novo século.

A minha aproximação a esta rede prendeu-se com o fato de me poder sentir mais "aconchegada" no caminho solitário que é ser um agente de mudança e não o poder implementar com a liberdade desejada (como as crianças merecem) no meu dia-a-dia como docente, seja pela resistência que cria nas pessoas que me rodeiam, porque ainda acreditam no “Papai Noel".

Aproximei-me com a esperança de renovar energias e abrir um caminho novo que alimentasse esta minha necessidade de aconchego. Contudo, chego a este momento sentindo que as dinâmicas pessoais, que muitas vezes são impeditivas de que a transformação aconteça, existem também em grupos cuja missão é agir por uma educação unificadora e transformadora.

Estar num grupo, cujas dinâmicas refletem o oposto da missão unificadora, é para mim desgastante. O "calor unificador" de que precisava, para seguir em frente neste momento, não existe, e a minha participação deixou de fazer sentido, quer a nível pessoal (falta de tempo e indisponibilidade horária para reunir a horas tardias), quer a nível das aspirações que sentia (na possibilidade de constituição de um novo núcleo que nutrisse as crianças da minha área de residência), assim como a nível profissional (como professora, que tenta irremediavelmente nas suas práticas diárias reconfigurar a educação, reinventando-a, reimaginando-a, inovando-a).

Desta forma, me afasto.”

Atento a uma anunciada desagregação, optei por um derradeiro esforço. Com quem correspondeu a um “convite”, ajudei a organizar “turmas-piloto”, protótipos de comunidades de aprendizagem (se quiserdes saber do que tratava, dizei-me e vos explicarei o que isso era). E adentramos 2025 com algo agregador, concreto, no chão das escolas. Assim respondi à mensagem da Mariana:

“Querida amiga, é preciso não perder o sentido dos gestos transformadores e aceitar alguma desagregação.

A "unificação" é idealizada. Façamos o que é possível fazer, o que estiver ao humano alcance: idealizar o real e realizar o ideal, aceitando a diversidade, acolhendo divergências. A unanimidade é perigosa, é prenúncio de autoritarismo.

Acolhe o meu fraterno abraço.”

Seria preciso religar, realçar a interdependência entre indivíduo e grupo, bem como as transformações que impeliam a novas formas de pensamento e ação. Muitos anos antes, Morin evocava a unidade complexa. Se a necessidade de organização tendia a transformar a diversidade em unidade, não anularia a diversidade. Num mundo em que imperavam princípios de disjunção, de redução – o que Morin designava de “paradigma da simplificação” –, um pensamento simplificador impedia a conjunção do uno e do múltiplo, anulava a diversidade.

Postagens mais visitadas deste blog

Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...