Queridos netos,
Em
2025, eu tentava ajudar amigos e companheiros de jornada a “matar o pai”
(psicanaliticamente, é claro!). havia completado setenta e quatro primaveras e
apenas desejava que me libertassem do fardo da militância. Urgia que
outros educadores tomassem nas suas mãos a… “missão”.
Para tal,
ajudei a criar uma rede de projetos de uma nova e melhor educação. Sentia
ter chegado a hora de ir plantar árvores e olhar passarinhos.
Sabemos
que uma rede não tem centro e que, por isso, se expõe a inevitáveis
"dinâmicas pessoais" e a manifestações de egos inflamados. Por isso,
não foi fácil concretizar o meu voluntário afastamento. Tão logo anunciei esse
propósito, recebi mensagens como esta:
“Como mãe
e educadora do século XXI, cheguei a este momento mais certa de que as minhas
crenças e visões em "chão de escola" estão corretas, dada a realidade
deste novo século.
A minha
aproximação a esta rede prendeu-se com o fato de me poder sentir mais
"aconchegada" no caminho solitário que é ser um agente de mudança e
não o poder implementar com a liberdade desejada (como as crianças merecem) no
meu dia-a-dia como docente, seja pela resistência que cria nas pessoas que me
rodeiam, porque ainda acreditam no “Papai Noel".
Aproximei-me
com a esperança de renovar energias e abrir um caminho novo que alimentasse
esta minha necessidade de aconchego. Contudo, chego a este momento sentindo que
as dinâmicas pessoais, que muitas vezes são impeditivas de que a transformação
aconteça, existem também em grupos cuja missão é agir por uma educação
unificadora e transformadora.
Estar num
grupo, cujas dinâmicas refletem o oposto da missão unificadora, é para mim
desgastante. O "calor unificador" de que precisava, para seguir em
frente neste momento, não existe, e a minha participação deixou de fazer
sentido, quer a nível pessoal (falta de tempo e indisponibilidade horária para
reunir a horas tardias), quer a nível das aspirações que sentia (na possibilidade
de constituição de um novo núcleo que nutrisse as crianças da minha área de
residência), assim como a nível profissional (como professora, que tenta
irremediavelmente nas suas práticas diárias reconfigurar a educação,
reinventando-a, reimaginando-a, inovando-a).
Desta
forma, me afasto.”
Atento a
uma anunciada desagregação, optei por um derradeiro esforço. Com quem
correspondeu a um “convite”, ajudei a organizar “turmas-piloto”, protótipos de
comunidades de aprendizagem (se quiserdes saber do que tratava, dizei-me e vos
explicarei o que isso era). E adentramos 2025 com algo agregador, concreto, no
chão das escolas. Assim respondi à mensagem da Mariana:
“Querida
amiga, é preciso não perder o sentido dos gestos transformadores e aceitar
alguma desagregação.
A
"unificação" é idealizada. Façamos o que é possível fazer, o que
estiver ao humano alcance: idealizar o real e realizar o ideal, aceitando a
diversidade, acolhendo divergências. A unanimidade é perigosa, é prenúncio de
autoritarismo.
Acolhe o
meu fraterno abraço.”
Seria
preciso religar, realçar a interdependência entre indivíduo e grupo, bem como
as transformações que impeliam a novas formas de pensamento e ação. Muitos anos
antes, Morin evocava a unidade complexa. Se a necessidade de organização tendia
a transformar a diversidade em unidade, não anularia a diversidade. Num mundo
em que imperavam princípios de disjunção, de redução – o que Morin designava de
“paradigma da simplificação” –, um pensamento simplificador impedia a conjunção
do uno e do múltiplo, anulava a diversidade.
