Entre o aparecimento da lousa de ardósia e o da lousa digital distam séculos. Nesse longo hiato, a escola, pouco, ou mesmo nada mudou. Apenas terá mudado o tipo de material utilizado na fabricação da lousa.
No final do século XX, jovens
internautas já comunicavam com outros, pediam e prestavam ajuda, em chats,
emails, e múltiplas plataformas digitais. Nesse tempo, importava mais que fosse
o aluno a esforçar-se, para descobrir e recriar realidades, do que uma
“realidade” ser comunicada por um professor. E quantos jovens comunicavam com
os professores, através da internet?
Num
tempo em que a prática da escrita da letra cursiva ia perdendo sentido, muitos
docentes ainda obrigavam os seus alunos a um gasto significativo do tempo
escolar no exercitar da letra cursiva, para que – segundo afirmavam – os seus
alunos tivessem “uma caligrafia perfeita”. Talvez se inspirassem em Steve Jobs,
que, quando passou pela universidade, apenas quis aprender… caligrafia.
Nos
jardins de infância, precocemente se escolarizava a infância, instituindo rotinas,
nas quais todas as crianças deveriam começar a dormir ao mesmo tempo, ainda que
não tivessem sono.
E, no
último reduto da transmissão de informação, os professores arriscavam-se a ser
uma espécie em vias de extinção.
”A
carreira dos professores “conteudistas” está por um fio! – disse-me a Ely.
Contou-me que o “professor Google” lhe ensinava quase tudo. Nos seus sessenta e
muitos anos, a aposentada Ely continuava a aprender.
Achou um
site em inglês com uma animação interativa do efeito do sal nas moléculas de
água. Interessou-se pelo assunto. O “professor Google” traduziu o texto, com
perfeição, do inglês para o português. E a Ely pode experienciar como era a
reação da água ao sal, nas temperaturas que colocava no site. Entendeu uma das
complexas propriedades coligativas da química. Mas continuou sem compreender
por que razão teve de ouvir aula sobre raíz quadrada, se, ao logo da sua vida
(e da dos outros), jamais precisara de usar tal raíz.
Encontrei
um princípio de resposta, quando, no chão de uma escola
particular e no dealbar deste século, deparei com a prática da chamada “webquest”.
Um professor universitário estadunidense havia criado uma proposta
metodológica, “para usar a internet de maneira investigativa e criativa” (sic).
Nos primeiros dias da World Wide Web, esse
especialista em Design e Tecnologia
desenvolveu uma estrutura, “para envolver os alunos com material baseado na
web”.
Muitas décadas atrás, mais ou menos, nestes termos
a “invenção” se definia:
“Grandes cursos mistos visam identificar alunos que
estão ficando para trás e desenvolver intervenções que os trarão de volta aos
trilhos (…) convertendo seus cursos para entrega online”.
Entre o “ficar para trás ou para a frente”, a
webquest, embora fosse, pedagógica e
antropagogicamente, uma iniciativa ingênua, era uma meritória tentativa de melhoria das
aprendizagens. Nunca duvidei da boa-vontade e honestidade
intelectual do criador, mas a criatura constituiu-se num modelo precursor da passagem da aula presencial para
a aula dada na Internet, disfarçada de “aprendizagem”.
