Num facebook, li a notícia da realização de um seminário: “Desafios para uma educação de futuro” - um dos painéis tinha por designação: “Estratégias para salas de aula menos chatas”.
Queridos
netos, juro que era essa a designação do painel! Isto vos garanto por saberdes
que, no tempo em que ainda se “dava aula”, elas não só eram chatas como
prejudiciais.
Uma
geração de auleiros (talvez um neologismo criado pelo meu amigo Pedro Demo), ignorantes
das ciências da educação, produzia e reproduzia males irreparáveis, em sala de
aula – as escolas enfeitavam a falência do modelo instrucionista com
frivolidades, inúteis paliativos e infantilizações metodológicas.
Mas,
por que disto vos falo, à distância de décadas?
Porque,
neste mês de maio de 2045, me preparo para uma breve viagem a Portugal e para,
mais uma vez, visitar a Associação Agostinho da Silva, na companhia do meu
amigo João.
O
Mestre Agostinho nos dizia que as instituições sempre se corrompem e acabam por
ser inúteis. Nos idos de vinte e cinco, a instituição Escola arrastava a sua
degradação pelos caminhos do ridículo e da desumanização.
Para
manter os alunos atentos, professores de cursinhos cantavam e tocavam em sala
de aula. Esses bardos da pedagogia eram disputados por empresas abútricas e
ganhavam comissão pelas vendas das aulas.
Uma
estudante que pretendia cursar Medicina exclamava:
“Ficamos
curiosos para saber que música o professor escolheu e que ponte vai fazer com a
matéria!”
A
estudante estava curiosa e eu estava preocupado com os médicos que iria
encontrar pelo caminho, na vida que me restava. Mas é verdade que, escutando
Bach e Mozart, as vacas produzem mais leite. E não nos esqueçamos de que, no
conto “O Flautista de Hamelin”, é pela música que o flautista seduz os ratos e
os arrasta para o abismo…
Se
o sábio Salomão disse que respondêssemos aos loucos conforme sua loucura,
talvez possamos aplicar às vedetas do “show business escolar” e aos
“deschateadores de aula” aquilo que Nietzsche, sarcasticamente escreveu:
“O
professor constitui um mal necessário. Afinal, é inevitável que os
intermediários desvirtuem, quase sem querer, o alimento que transmitem”.
Há
vinte anos, a escola da sala de aula já tinha ultrapassado, há muito, o nível
do absurdo. Mas poucos disso se apercebiam. As empresas da sociedade do
espetáculo mercantilizavam a Escola (que deveria ser) Pública - a uma geração
de hedonismo exacerbado eram oferecidos cursos-espetáculos, para tornar as
aulas… menos chatas.
A
imbecilidade estava travestida de pedagogia e nada mais poderia ser inventado,
para disfarçar o drama. Embalados por canoros mestres ou por deschateadores de
aula, os jovens sobreviviam mais facilmente no “salve-se quem puder” egoísta,
que lhes rendia o acesso à universidade, enquanto iam cantarolando e se
deschateando.
Os
homens inteligentes querem aprender; os outros querem ensinar,
disse-nos Anton Tchekhov. E os auleiros – chateadores, ou deschateadores –
insistiam na peregrina convicção de que é possível dar de beber a um cavalo,
quando ele não tem sede.
A
ética da alteridade estava ausente nos lugares onde, pavlovianamente, os
“melhores professores” deschateavam os alunos.
Referindo-se
às escolas do século XIX – que, mais data show menos pau de giz, em nada diferiam
das escolas deschateadores do século XXI – Stefan Zweig assim definiu a escola
da sala de aula:
“É
um exército formidável de guardiães disfarçados de professores, que, com meios
artificiais e antinaturais se organiza para roubar à juventude a possibilidade
de ser”.
E
se matou.
