Pular para o conteúdo principal

Aves, 30 de junho de 2045

Por mais inverosímil que possa parecer, tudo aconteceu do modo como relatei os fatos. Apercebendo-me de esconsas manobras políticas, enviei farta correspondência para órgãos do ministério, dado que, ainda antes de me aposentar, me apercebi de que muitas cartas, circulares e ofícios tinham “desaparecido”. 

Daí que, vinte anos depois, desse a ler aos companheiros e companheiras de projeto cópias fidedignas de documentos que, durante esse tempo, guardei. Embora possas parecer maçadora, a sua leitura é obrigatória para quem quiser conhecer o “lado oculto” do projeto “Fazer a Ponte”. Aqui vai.

“Na posse das conclusões da Avaliação Externa, que eram extremamente favoráveis à Escola, a administração optou, porém, uma vez mais, pelo silêncio, sonegando essa informação à opinião pública.

A campanha violentíssima desencadeada contra a Escola, campanha que não olhou a meios para atingir os seus fins, e o silêncio cúmplice da administração, objetivamente recetivo à calúnia, instalaram, numa parte da comunidade envolvente, fortes dúvidas sobre o mérito e a adequação pedagógica do Projeto Fazer a Ponte, que levaram muitos pais de S. Tomé de Negrelos a subscrever o abaixo-assinado e a encaminhar os seus filhos, que haviam concluído o primeiro ciclo, para outras escolas. 

A situação levou o ME cancelar a construção do edifício da nova escola, que deveria estar concluído e pronto a ser utilizado em setembro de 2003 – a calúnia, uma vez mais, tinham compensado!

A proposta inicial da Associação de Pais da Escola da Ponte era, porém, muito mais pragmática que a solução que acabou por ser legalmente instituída: defendia, numa primeira fase, o alargamento do Projeto Fazer a Ponte ao segundo ciclo, abrangendo apenas os alunos que tivessem concluído o primeiro ciclo na Escola da Ponte, ou seja, crianças que já dominassem os principais dispositivos ou suportes de organização do trabalho escolar em que assenta o Projeto. O ME, apostando numa com um espectro de recrutamento mais vasto, abrangendo as crianças de todas as escolas do Agrupamento, mesmo aquelas onde não chegara ainda a ser implantado o Projeto Fazer a Ponte. 

O entendimento da Escola (que, ao longo de 25 anos, sempre rejeitara o aventureirismo inconsequente e os modismos faz-de-conta da inovação decretada) era o de que a extensão do Projeto Fazer a Ponte ao segundo ciclo deveria concretizar-se de uma forma gradualista e muita refletida, permanentemente acompanhada e avaliada por uma entidade exterior, cuja composição, de resto, o próprio Ministério da Educação chegou a definir.

Apesar de não ter desejado a solução institucional que acabou por ser adotada, a EBI de Aves/S. Tomé de Negrelos tem procurado honrar todos os compromissos que assumiu perante a administração e a comunidade e, em condições extremamente adversas, tem realizado um trabalho que continua a ser apreciado pelos encarregados de educação dos seus alunos e que continua a ser objeto das referências mais elogiosas por parte dos professores, educadores, pais e investigadores que constantemente a procuram e a visitam, muitos deles, estrangeiros.”

Enquanto o projeto era visitado por milhares de educadores de portugueses e estrangeiros no território em que o Fazer a Ponte nasceu, “professores” e políticos moralmente corruptos teciam um plano feito de intrigas, urdiam uma trama ornada de falsidades, criavam obstáculos a um projeto feito de sofrimento e resiliência. É necessário recordar perseguições e múltiplas tentativas de destruição que o projeto sofreu.

(continua)

Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...